Seria um déjà-vu?

Publié le par alinemariane

Estou em Dakar outra vez, por apenas duas semaninhas. Depois da temporada em Nairobi, tenho uma sensaçao de déjà-vu que me acompanha. Os extremos leste e oeste da Africa sao muito (mas muito mesmo) diferentes, mas nao posso deixar de comparar o Quênia com o Senegal. Sei que a comparaçao nao é justa, é como comparar brasileiros com equatorianos ou japoneses e chineses. Também nao quero ser preconceituosa. Ao contrario, quero mais é abrir os olhos e correr para horizontes diferentes. Afinal, em tempos globalizados é muito facil passar por outro pais e outra cultura bem diferente e nem notar, continuar vivendo da sua maneira. Nao é o meu caso. Nao sei viajar sem me aprofundar no cotidiano da nova cultura, mesmo que isso signifique comer sem talheres ou tomar banho de balde de agua gelada.

 

Alguns déjà-vus africanos:

 

hi-how-are-you-cover.jpgGentileza gera gentileza

Ja comentei que no Senegal os cumprimentos entre conhecidos podem ser looongos e que todo mundo, mas todo mundo mesmo, se cumprimenta com "Bonjour, ça va" - na verdade, o "ça va?" ou tudo bem? é mais importante que o "Bonjour" ou Oi.

No Quênia também. Andava pela rua repetindo "Hi", "Fine, and you?" ja que "Hi, how are you" também é onipresente.

Por outro lado, desista de escutar com licença, obrigada e por favor. Politesse nao é o ponto forte em nenhum desses paises.

Nota engraçada: os passageiros dos matatus (vide outro topico) se desculpam pelas trapalhadas do motorista. Passou por um buraco, um solavanco mais forte, uma curva fechada em alta velocidade? Os passageiros repetem em coro "Sorry!".

pao de forma

Paozinho de cada dia

O Senegal tem a sua versao da baguete francesa: comprido, largo e molengo, parece primo do nosso paozinho francês. Chamam de quilo.

O Quênia também tem a sua versao do pao tipico dos colonizadores: a toast. A diferença é que, ao contrario do habito ingles, a toast nao é torrada, é so o pao de forma. Nas versoes simples e integral, come-se puro mesmo, raramente com margarina ou geleia, mas sempre empilhados em três fatias de cada vez.

car-rapide-matatu.jpg

Transporte alternativo

Também ja comentei sobre os cars rapide de Dakar e Saint-Louis. Sao mini-ônibus dos anos 1960, coloridos, efeitados e precariamente reformados que apertam mais de 20 pessoas num espaço originalmente destinado para menos da metade. Sao baratinhos, mas nao sao nada rapides.

Nairobi tem os matatus. Ou "hakuna matatu", quando nao tem, ja que, como os cars rapides, sao particulares e fazem do transporte publico o que bem entenderem. Até existe uma numeraçao de linhas e itinerarios, tentativa frustrada de organizar o caos. Em comum, sao coloridos (tags e graffiti no lugar das frases do Corao dos cars rapides) e fazem caber pelo menos o dobro da  capacidade maxima de passageiros. De diferente, sao mais novos (vans Toyota e Peugeot) e a velocidade faz jus à fama de bons corredores dos quenianos...

Nota engraçada: Mary, minha amiga queniana, tinha tampoes de ouvido especialmente para os matatus. Como regra, os motoristas dos matatus deixam o som no ultimo, insuportavel!! Em uma semana o Loic comprou tampoes pra ele, também. Ainda bem que eu nao pegava matatu todos os dias...

Chachazinho.jpg de leite

O cha senegalês, ou attaya, como contei aqui, nao é grande coisa, mas todo o ritual que envolve é muito interessante.

O Quênia produz um dos melhores cafés do mundo, mas a bebida preferida de todos é mesmo o cha. O tea inglês é chamado de chai e nada mais é que o cha preto servido com leite quente, bem fraquinho e bem doce. Os quenianos dizem que quem toma cha sem leite é muito pobre (os senegaleses, segundo essa logica, sao pobres!) e mesmo os bebês pequenos tomam leite assim.

Sem talheres

Também ja contei que no Senegal come-se num prato coletivo no chao. Os homens usam colher e as mulheres comem com a mao. Como eu faço a maior sujeira comendo sem talher (falta de treino), sempre ganho uma colher, vantagens de ser toubab. Nao ha muita preocupaçao com a higine nao, entao pode ser que as maos que passeiam pela comida nao tenham sido lavadas...
ugali.jpg

A comida no Quênia é muito parecida com a do Brasil. Come-se arroz com feijao com bastante frequência e ha os mesmos legumes que estamos acostumados. E tudo é separadinho na sua panela e no prato. Seria ainda mais igual se nao fosse uma especialidade: o ugali. Ugali é uma massa de farinha de milho bem consistente, como um angu ou um pao cru. Se tem ugali (e ugali é como o nosso arroz-com-feijao), come-se com a mao: corta uma fatia, aperta e mistura com o caldo que tiver. Ou seja, os quenianos também bem frequentemente comem sem talheres! Porém sem descuidar da higiene. Nos restaurantes, é comum que antes de servir os garçons passem uma bacia de agua e sabao para lavar a mao de todo mundo à mesa. Todo mundo fica de olho se alguém nao lava as maos antes de comer...

 

thermometer.jpgFalta força, pede agua

Dakar nao mudou nada nesse aspecto: os cortes de energia e a falta d'agua continuam a mesmissima coisa!

Ja cheguei em Nairobi sem energia elétrica. Algumas coisas no aeroporto funcionavam à vela, inclusive o posto de vacinaçao contra a febre amarela - ainda bem que consegui convencer os agentes de saude sobre a minha carteira de vacinaçao em português, porque fiquei com medo de ter que re-tomar a vacina nessas condiçoes... Também nao tem agua o dia todo. Muito menos agua quente. So que Nairobi nao tem os 30 graus constantes de Dakar e tomar banho gelado era uma tortura, aaahh!! Mas sobrevivi pra contar que é possivel uma escola sem energia elétrica e sem agua. Nao porque falta, mas porque nao tem mesmo.

 

kenya.png

Questao de idioma

No Senegal, a lingua oficial é o francês e a lingua mais falada é o wolof.

No Quênia ha duas linguas oficiais: kiswahili e inglês. Tive a impressao de que se fala mais kiswahili que inglês, nao conheci ninguém que nao falasse inglês também - enquanto no Senegal, em vilarejos ou mesmo aqui na periferia de Dakar, uma minoria fala francês.

Crise de identidade

No Senegal, eu sou toubab . Todo mundo parte do principio que sou francesa.

No Quênia, eu sou mzungo. Todo mundo parte do principio que sou norte-americana (e nao inglesa, note bem!)

E quando falo que sou brasileira, os comentarios sao um so: futebol para os homens e novela para as mulheres. Bem, pelo menos assim tenho assunto com todo mundo!!

Publié dans em português

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luci 02/06/2010 22:39



aline, camilo ja falou pra voce que gostaria que voce trouxesse, caso voce possa, claro, um mini-onibus desse de dakar? o teu amigo que hospedou ele, levou camilo numa feira e camilo comprou uma
miniatura desse mini-onibus feita em lata. mas ele queria um outro pra presentear o pai dele, que faz 70 esse ano e eh fissurado em artesanato. dai, enfim, nao sei como fica pra voce a questao da
mala, da disponibilidade pra comprar e tal, entao, se voce puder comprar um, voce me diz? e alias, se nao puder tambem, da um toque. beleza?


camilo trouxe umas coisas muito bonitas e simples de dakar. uns brincos, umas cestas, uma canga... muito lindo!



Amanda 31/05/2010 14:45



Essa coisa do por favor e obrigada é séria, né? Tenho um amigo senegalês e uma vez fui com ele procurar um aparelho eletrônico que ele estava de olho. A gente entrava em varias lojas, ele
pedia varias informações e depois virava e ia embora, assim, sem nem agradecer! Eu morria de vergonha, deixava ele sair primeiro e depois sussurrava um "merci" pro vendedor, mas com medo do meu
amigo ouvir e se sentir ofendido, sei la! Engraçado que ele é super gente boa, muuuuito simpatico, uma otima pessoa. Mas o merci não sai de jeito nenhum!