Protesto!

Publié le par alinemariane

A França entra na sua segunda semana de greves e protestos contra a reforma da previdência. Aqui no interior, as escolas de ensino médio estão bloqueadas pelos próprios alunos, não tem mais gasolina e o lixo se acumula nas ruas - as fotos são todas num raio de 50m de chez moi. Ontem vi uma ambulância de urgência pichada "Estamos em Greve. Contra a Reforma". Há manifestações todos os dias e é normal ver pessoas carregando faixas e cartazes pela rua.

aP1100372.JPG>> Angers politicamente é uma contradição: tem fama de rica e conservadora, governo socialista e prefeito que está no poder há incríveis 12 anos, de fazer inveja a muito ditador por aí.

bP1100363.JPGNo auge das muitas greves que passei nos meus oito anos de USP, duas coisas não paravam: a FEA (Faculdade de Economia e Administração) e os atletas corredores no final da tarde. Pelo menos na minha época, a PM não invadia a Cidade Universitária com cacetetes e spray de pimenta, mesmo que os estudantes invadissem a reitoria. Talvez porque o governador não era o Serra, esse mesmo que agora é agredido por uma bolinha de papel... Enfim, voltemos ao assunto.

Mudam as estações e há coisas que não mudam: a Université d'Angers também parou, exceto a Faculdade de Economia e Direito. Os estudantes de história, letras, psicologia estão (ou deveriam estar) nas ruas. Eu tenho aulas. Não tem bandejão, os ônibus estão caóticos, não tem gasolina, não circula jornal... mas a minha faculdade não pode parar.

Aproveito para discutir com meus coleguinhas e professores. Afinal, somos economistas do tipo que não ganha dinheiro - meu mestrado é em economia do desenvolvimento local e não em mercado financeiro - deveríamos nos solidarizar com os outros estudantes! Basta uma voltinha na manif para ver que não temos mesmo muito a ver com os manifestantes também não...

cP1100365.JPGCom a falta de empolgação dos universitários, sobrou para os estudantes de ensino médio irem para as ruas. Sabe, eu tenho pena deles. Não apenas por serem adolescentes cheios de questões, ideologia e tempo livre - todo adolescente merece um pouco de pena da parte de nós adultos. Tenho pena por tão novinhos, sem nunca terem trabalhado na vida, estarem pensando em quando vão parar de trabalhar.

Precisei da Amanda (e sua ótima séria de posts, vale a pena ler!) para entender o valor da aposentadoria para os franceses. Pois é, gente, nós brasileiros não entendemos o que é aposentadoria para um francês. Não é à toa que esse é um assunto que sempre vem à tona, não importa a idade dos grupo de franceses. Como a baguete, o vinho e as próprias greves, a aposentadoria é verdadeiramente uma instituição por aqui.

dP1100369.JPGO melhor resumo para a situação da previdência na França é se correr o bicho pega se ficar o bicho come. Parece não ter solução justa. Ninguém está contente, ninguém tem proposta melhor. Todo mundo entende o problema, todo mundo é contra a solução. Sobrou muito descontentamento para o presidente mais odiado da Europa: M. Sarkozy e seus 30% de aprovação.

Análises não faltam: mulheres e profissões duras e mal-remuneradas são os maiores prejudicados pela reforma. Também chovem propostas utópicas (mas interessantes!): é preciso taxar os patrões, tirar as mordomias dos funcionários públicos e políticos. O que me desanima são as enrolações com cara de verdade: aposentadoria mais cedo proporciona mais emprego para jovens.

eP1100362.JPGOs estudantes do ensino médio vão às ruas iludidos com essa ideia: se a idade para se aposentar aumenta, terão menos trabalho. Mal sabem que eles terão menos (ou mais!) trabalho independentemente se os vovôs franceses se aposentam aos 50, 60 ou 70 anos. Essa lógica não é tão simples assim, como não é a diminuição na carga horária de trabalho e nem mesmo o peso da expectativa de vida na previdência. Há vários fatores no meio. Nem milagre nem bola de cristal existem, mesmo que às vezes dêm a impressão de existirem.

Eu gostaria de me juntar aos outros estudantes e ser contra a reforma. Mas não consigo. E nem é só pelo fato de não compreender o que é a aposentadoria à la française. Não compreendo a ideia de estado à la française. Fico cansada desse estado gigante e asfixiante que a França tem, como uma grande culpa por ter decaptado o rei e inventado a república. Sinto que os franceses raramente se dão conta do quanto esse estado gordo é limitador...

O que me anima é a ideia de mudar essa lógica. Se não pode vencê-los, junte-se a eles e faça diferente. Não me venha com esse papinho de "ah, o governo deveria fazer mais por mim" e faça você mesmo! Não tem emprego para você? Crie ou ajude a inventar um! Não vai se aposentar quando queria? Mude sua ideia de aposentadoria!

Ai, acho despertei a adolescente que mora em mim... Espero que não tenham pena.

Publié dans em português

Pour être informé des derniers articles, inscrivez vous :

Commenter cet article

caso me esquecam 23/10/2010 13:43



"se correr o bicho pega, se ficar..." foi exatamente a expressao que usei la no blog (eu acho que foi la) pra definir esse caos na frança. mas eh engraçado e contraditorio. as pessoas vivem mais,
portanto, tem que trabalhar mais. trabalhar mais (quando voce ja passou a vida toooooda fazendo isso) faz com que sua qualidade de vida (e a propria vida) diminua hehehe