Pobres professores

Publié le par alinemariane

o-professor-e-o-pm.jpgManifestaçao de professores em SP, ano de eleiçoes, sindicado dos professores contrario ao governo estadual (e pro-governo federal), foto otima da Agência Estado, esquerda diz que a PM é opressora, esquerda diz que professor é baderneiro. Assunto velho. Nao so porque aconteceu durante a semana, mas porque é um tema que parece se repetir ao infinito.

Vocês ja sabem que nao votei no Serra. Isso nao quer dizer que abomino o cara - apesar de confessar uma associaçao imediata com o Gargamel dos Smurfs que me da um medinho... Até votaria nele, num caso extremo. O governo dele em SP tem sido igualzinho aos varios outros que passaram por la, mesmo antes da "dinastia" PSDB. Inclusive nas manifestaçoes de professores.

A rede estadual de educaçao de Sao Paulo é o maior empregador do Brasil. Sim, nao tem nenhuma outra empresa privada ou orgao publico que empregue tanta gente! Mas, pobres professores, eles nao sabem o poder que têm. A Apeoesp, sindicato que os reune, pena pra organizar manifestaçoes como essa, se descabela por uma greve de dois dias. E nao ousa fazer nada disso sem ajuda politica, fora de ano de eleiçao.

serra-gargamel.jpgInteressante que é possivel ter exatamente a mesma conversa sobre a situaçao atual da educaçao com um paulista e com um francês médio. Ambos vao dizer que a educaçao vai de mal a pior, que os professores sao mal formados e mal pagos, que so sabem fazer greve e que nao sabem impor disciplina. A reclamaçao é a mesma, mas a condiçao real definitivamente é diferente.

Pra começar e nao ir muito longe, a escolarizaçao obrigatoria foi instituida na França em 1882 e no Brasil em dezembro de 1996. Pois é, mais de 100 anos de diferença! O que isso significa? Que mesmo depois que a gente nasceu, a escola no Brasil nao era considerada uma obrigaçao do Estado, crianças poderiam nao estudar por nao haver vagas, simplesmente. Faça o teste: lembre-se rapidamente da escolarizaçao dos seus pais e avos e pais e avos de amigos. Tenho certeza que sou um caso rarissimo de avo (com o acento agudo que nao tenho) com curso superior.

A mudança que a lei de 1996, a LDB, trouxe para o pais é inegavel e importante. Na minha humilde opiniao, foi a verdeiro e grande legado que o FHC deixou, maior mesmo que o plano real (ah, é, ele nao era presidente ainda... mas tudo bem, ele que levou os louros!). Foi a partir de entao que o acesso à escola passou a ser, aos trancos e barrancos, um direito de todos.

Cada estado reagiu à sua maneira a essa democratizaçao do acesso. Isso porque outra caracteristica da lei foi exatamente a autonomia estadual. Sao Paulo criou a "progressao continuada", tida pelo paulista médio como o grande problema da educaçao atualmente. Se a LDB trouxe a democratizaçao do acesso, a progressao continuada trouve a democratizaçao da permanência.

Tenho certeza que você ja ouviu que é "um absurdo" nao ser possivel "repetir de ano". Dizem que é a causa do analfabetismo funcional e da falta de autoridade do professor em sala de aula. Esquecem-se de que antes do analfabetismo funcional existia o analfabetismo de verdade, pois o "repetente" abandonava a escola, e que os professores continuam sem autoridade mesmo onde a repetência é uma ameaça.

A gente vive uma revoluçao e uma crise sem se dar conta disso. A democratizaçao do acesso ao Ensino Fundamental fez pressao no Ensino Médio e nesse exato momento pressiona o nosso timido Ensino Superior. (Faculdades privadas pipocam por ai nao so porque ha uma legislaçao permissiva, mas porque ha um mercado gigantesco!) Brasileiros estao cada vez mais escolarizados, num prazo tao rapido que a qualidade nao foi capaz de acompanhar, infelizmente.  

O pior fica para o pobre professor. Essa é uma profissao que conta com uma contradiçao em si mesma, que exige muita reflexao.

<< Quando estava no Ensino Médio (os meus três unicos anos no ensino privado), prestei vestibular para Pedagogia na Unesp como "treineira". Nunca vou me esquecer de um professor que me disse: "Pedagogia?! Mas você é tao inteligente!". Tao inteligente que segui a recomendaçao fui fazer outra coisa "mais nobre", fiquei frustrada e voltei pra Pedagogia depois. Melhor coisa que fiz, apesar de nao ter terminado (faltou pouco! Ou melhor, cansativas 200h de estagio).>>

Os professores eles mesmos duvidam da sua profissao. Aqui na França, nesse aspecto, é igualzinho. Eles nao sabem o poder que têm, fecham-se num mundinho de salario e rendimento mediocre. Nao sabem o que querem, o que podem. Ao mesmo tempo que exigem respeito profissional, afinal, professor nao trabalha por caridade, nao adimitem serem avaliados e pagos por desempenho, como qualquer outro trabalhador. Procuram nos alunos o mesmo tipo de disciplina que foram exigidos no passado e esquecem que sua propria geraçao foi a responsavel por mudar esse conceito. Contradiçao pouca é bobagem.

Tanto é que raros sao os bons alunos que querem ser professores. A maior parte dos professores acaba na profissao por acidente. Nao refletiu antes, nao reflete durante a formaçao (o curso de Pedagogia é um otimo exemplo!) e continua sem refletir na sala de aula e no sindicato. Acaba fazendo manifestaçoes assim, la e aqui.

Pobres professores... Pobre de mim que vou ser professora, um dia.

PS: Relativizo a motivaçao da manifestaçao. Contudo jamais relativizo o protesto ele mesmo, muito menos a violência da PM. Protestar em paz é um direito!

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Jak 19/05/2013 23:48


 " A mudança que a lei de 1996, a LDB, trouxe
para o pais é inegavel e importante. Na minha humilde opiniao, foi a verdeiro e grande legado que o FHC deixou, maior mesmo que o plano real (ah, é, ele nao era presidente ainda... mas tudo bem,
ele que levou os louros!)"


O FHC não era Presidente ainda, mas era Ministro da
Fazenda, e idealizou o projeto(plano real) com a contribuição de vários economistas reunidos por ele. Com isso FHC  elegeu-se Presidente. Então não foi à toa que ele levou os louros do plano
real.


Parabéns pelo blog.

Henrique 01/05/2010 14:35



Para não perder a rotina de nos contrariarmos em nossos textos, deixo aqui meu protesto contra a APEOESP! Infelzimente ela não representa a classe. É uma ferramenta política, alguns poucos
radicais utilizam o sindicato para fazer barulho em ano de eleição e gerar ruído na mídia. Lembro-me meus anos na USP, as greves sempre vinham somente em ano de eleição, sem nenhuma agenda
específica e sempre acompanhada dos dizeres FORA FMI FORA FHC! Triste, os prejudicados são justamente os alunos da rede pública!



luci 29/03/2010 19:52


pobre da gente! e pior: desde sempre pensei em ser professora. entrei na facul, terminei, mas cada vez que vejo uma situacao dessas penso "o que vai ser de mim".

o triste eh que educacao nao comeca ou termina com o professor. eh toda uma rede que ja tah bamba. o professor que tenta por ordem eh ameacado. o que nao tenta, se fode com os alunos dentro de
sala. mal pagos... estimulo zero...