Falando a mesma língua

Publié le par alinemariane

Dá para fazer uma lista gigantesca de aspectos interessantes, estranhos, difíceis ou engraçados de ser um casal internacional. Hoje vou falar do idioma. Qual a (des)importância da língua para um bom relacionamento? - ei, essa frase ficou ambígua, mas vou deixar assim mesmo, hehe.

drapeau-france-bresil.jpgQuando conheci meu cherido Loic, eu falava algumas frases em francês e um inglês capenga (que aqui na França é considerado fluente). Ele só falava um inglês capenga. A gente conversava predominantemente em inglês, mas como eu entendia um pouco das conversas e conseguia fazer frases simples, às vezes a compreensão era melhor em francês, mesmo. Depois, quando decidi me mudar pra Paris, aprender francês era mais que obrigatório. E foi assim que nos tornamos um casal exclusivamente francophone.

Bem, mais ou menos, né?! Nunca vou falar como uma francesa. Talvez nem escrever. Penso em português, então minhas frases têm esse idioma como origem. Daí crio coisas engraçadas, como o verbo "desallumer" (já que allumer quer dizer acender, desallumer quer dizer apagar! Só que isso não existe, apagar é "éteindre"). Ou o verbo "varrir" para varrer, minha criação involuntária de hoje, como se não soubesse que é "balayer". Ou ainda quando falei de "phoque" (foca) numa entrevista, pensando que falava de "foco"...

Sem contar confusões de gramática. "Là" é "aqui", como já contei. Então Loic me pergunta: "Tu manges là?" ou "Você almoça aqui??" e eu escuto "Você almoça lá?" (lá = lá na faculdade, para onde estou indo). E eu respondo que sim. Resultado: ele me faz almoço pra mim e eu como no bandejão.

O lado positivo de toda essa confusão foi que aprendi francês. O negativo foi que ele não aprendeu português. Até o início deste ano, ele não passava do "Bom dia, tudo bem?". Isso precisava mudar!

assimil.gifResolvi deixa-lo continuar com o seu Assimil, um desses métodos de auto-aprendizado que faz muito sucesso aqui. Eu não gosto. Para começar, tem instruções e traduções em francês - e essas traduções são "ao pé da letra", o que é péssimo! Além disso, está desatualizado e tem frases como "Este livro custa quinhentos cruzeiros" ou ainda "A nova capital do Brasil é Brasília". Desisti de procurar um bom método / livro didádico. Uma pena que poucas pessoas queiram aprender português como língua estrangeira, pois os métodos são muito poucos e muito ruins.

Comecei redecorando a casa. Colei post-its com os nomes em português de tudo: sofá, xícara, torneira, meia, maçã, lâmpada... Percebi que precisaria ir além quando o post-it da frigideira descolou e eu o reencontrei colado na geladeira.
 
Para piorar, acontece que Loic simplesmente não entende quando falo português naturalmente. Eu tenho um sotaque misto! Sou belorizontina-barbarense-paulistana e misturo esses jeitos de falar tão peculiares. Ou talvez simplesmente não tenha boa dicção. Sou obrigada a falar be-em de-va-gar, como que para um ditado para a primeira série. O pior é que ele diz que entende outras pessoas! Ou será que está zoando com a minha cara?!

garotobombril.jpgPrecisava, então, escutar outras pessoas. A solução: comercial de TV no YouTube. Achei uma série perfeita: as campanhas do BomBril e seu garoto propaganda. Perfeito! Como resultado, Loic aprendeu frases ótimas como "Mil e uma utilidades" "Tudo passa mas BomBril fica". Só não entendeu ainda pra quê serve um BomBril.

Depois da viagem para Cabo Verde, o português dele está bem melhor. Obrigação profissional tem mais peso que insistência de esposa. Para a sorte dele (e da empresa), sou uma consultora-informal insistente, também. Quase morri de rir quando descobri por acaso que queriam que a filial lá se chamasse "Sem Cabo".

A gente não se escreve longas cartas de amor, por incompetência linguística. Nossos e-mails são curtos e sem abreviações. Também não temos "DR" por qualquer palavra mal empregada. Ele não entende quando eu falo do gato escaldado ou do pé frio. E eu ainda não entendi porque não posso chamar o oceano de mar. Ele não consegue diferenciar vovô de vovó. Eu nunca sei se são os nigériens ou os nigérians vêm do Niger ou da Nigéria.

Quem disse que um casal precisa falar, literalmente, a mesma língua?!

Publié dans em português

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cristiane 31/07/2010 17:01



Muito bom!!!!



luci 14/07/2010 11:08



tijolo de acai eh foda hahahahahaha


ah, bom eh fazer eles falarem "no poço não posso". camilo nao conseguia. coca, coco e copo era quase a mesma coisa. =~



luci 14/07/2010 11:06



a coisa do post it deu ate certo comigo no brasil, quando eu e camilo sabiamos que eu viria. como colamos somente dentro do quarto, o vocabulario nao era muito amplo, mas aprendi o que era mesa,
cadeira, calcinha, cama...


nao achei nenhum exemplo desses "erros" de traducao meus do portugues pro frances (existem, claro), mas bonitinho eh camilo vendo meus pelos crescerem e dizer que eles estao "rasposinhos"
hahahahaha ele se joga. eh foda que eu esqueci as coisas que ele dizia no começo, mas eu morria de rir. as vezes era uma mistura de espanhol com frances bizarro. doido.


ah, e eu acho que, se camilo entendeu o sotaque paraibano, ele poderia entender qualquer um. eu falo rapido pra caralho. quando tinha que falar com os gringos em joao pessoa, eu fazia esforço de
nao ser muito afoita. as vezes dava certo.



Clément 12/07/2010 13:05



Menina ja ri muito desse poste!!! kkk é muito engraçado! esse problema eu não tenho, o meu francês fala até bem o portugues. Mas não me esqueço no inicio da releção ele falou SERTARENO pra dizer
sertanejo!!! kkkkk  beijos!



Helena 09/07/2010 18:09



É muito divertido mesmo ser um casal de duas línguas :D


Quando o maridón chegou no Brasil, em 2003, a gente se conheceu falando inglês. Mas depois de um mês aqui ele já estava falando português! Traga o Loic para uma temporada no Brasil, tenha
paciência para falar devagar e explicar tudo e, principalmente, só fale português com ele. Em um mês ele estará se comunicando bem.


Mesmo depois desse tempo todo juntos e alternando português e francês como língua falada em casa, ainda saem coisas muito engraçadas da minha parte e da dele. Uma que eu nunca esqueço, mas que
foi bem no comecinho do relacionamento, foi quando ele disse que queria comer um TIJOLO de açaí! hehehe


Bisous!