Entre os muros da escola - Quênia (parte 3 e fim)

Publié le par alinemariane

ou A cultura do medo

 

A doença

Entra o diretor e o voluntário de terno e gravata. Perdi a apresentação dele, pois estava tentando equilibrar os livros na prateleira sem derrubá-la. Aperta as turmas de Stantard 7 e 8 (13 e 14 anos) numa sala. Começa a palestra perguntando:

P1080031.JPG-- Quem aqui tem medo de contrair Aids?

Achei a pergunta estranha. Todos levantaram a mão. Claro, depois de verem tantos conhecidos sofrerem e morrerem e ainda por cima terem tantas informações contraditórias, qualquer um teria medo.

-- Pois saibam que Aids não é uma doença (disease), mas uma infecção (infection). [???] Vocês não estão condenados a tê-la. Vocês podem evitar. [ok!] Basta que escolham bem suas companhias e não usem álcool ou drogas [??].

Mostrou fotos horríveis de pessoas agonizantes, contou histórias de famílias desfeitas, homens brilhantes que morreram cedo. Enfim, no final da palestra, os alunos (e eu!) estavam ainda mais aterrorizados. E sabiam ainda menos sobre a doença e suas formas de contaminação.

Enquanto organizava a "biblioteca", folheei um por um dos livros didáticos, de todas as séries. Vários tinham ao menos um texto sobre Aids, sempre os mesmos temas: alcool e drogas, famílias destruídas, preconceito, doença fatal e sem cura, muito, muito sofrimento... Apesar de tratar de seringas compartilhadas, não encontrei nenhuma menção às transfusões de sangue, muito menos ao uso de preservativo e sexo seguro. Os termos camisinha ou preservativo simplesmente não aparecem.

Vejam só esse cartaz que decorava a sala do Standard 8. Notem que os personagens são brancos e loiros. Traduzindo algumas frases: "Nem todo mundo que é bonito é HIV negativo", "Vamos educar nossas crianças contra a Aids", "Juntos podemos defender você", "Aids é real, não uma maldição como eles acreditam, também não existe cura. Abstinência é o melhor. Escolha. Arrepie-se por sua vida!"

 

A violência
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Meu segundo dia na escola, minha primeira aula, minha primeira amiguinha, a primeira questão:

-- Lá no seu país é permitido que os professores batam nos alunos?

Ahn? Pedi para ela, Jane, do Standard 7, repetir umas duas vezes e só entendi quando ela fez o gesto de bater. Ela não tinha nem perguntado meu nome, nem de qual país eu era, nada, ela queria saber se os professores podiam bater nos alunos.

-- Não!! Claro que não! Um professor pode ser preso se ele bater nos alunos! - Aí pensei no porquê da pergunta - E aqui? No Quênia os professores podem bater nos alunos?
-- Aqui é permitido...

Notei lágrimas nos olhos dela. Mas voltamos a fazer o exercício de inglês. Depois, em casa, contei a história à Mary que reagiu furiosa, dizendo que isso é agressão física e que não, no Quênia não era permitido que os professores batessem nos alunos.

Depois constatei que Mary estava sendo otimista. Presenciei pelo menos uma agressão (tapas, coques, beliscões, pancadas com livro...) de cada professor. Não sei se nesse caso se pode classificar entre "agressões leves" e "agressões pesadas", pancada é pancada, ué!

A professora substituta

A professora do Standard 1 foi embora e me chamaram para dar aulas como substituta. Imagine só, eu que mal falo inglês e não falo kiswahili dando aulas para a turma de alfabetização! A outra professora me apresentou assim:

P1070957.JPG-- Pessoal, essa é a Alina, ela vai dar aula pra vocês esses dias. Vocês vão ter só inglês, matemática e artes, depois a gente repõe kiswahili, ok? Sejam educados, comportados e respeitem a Alina, porque eu vou deixar isso aqui com ela - tom de ameaça, mostra um pedaço de mangueira de borracha - e vocês já sabem!
Ela sai e eu, ingênua, pergunto para os pequenos:
-- Pra quê serve isso?
-- Pra bater na gente!

Começo minha primeira aula explicando que não, eu NAO vou bater neles, que violência não serve para nada de bom, que eu gostaria que fôssemos amigos, etc. etc. Tive até uns breves momentos de arrependimento de ter dito isso no início das aulas, especialmente quando a gritaria e a bagunça eram tantas que eu já não conseguia controlar. Mas não. No fundo, foi a melhor coisa que fiz. Não sei se uma semana foi o suficiente para essas crianças de 7 anos aprenderem que existe autoridade sem violência. Só sei que foi compensador:

-- Você vai embora? Para o seu país? E você volta quanto? Obrigado por ser uma professora legal e não bater na gente...

A professora descontrolada
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Eu já estava pirando a batatinha. Surtando mesmo. Não aguentava mais ver aluno apanhar e não fazer nada. Minha indignação estava se canalizando para uma professora em especial, de matemática e ciências, rainha das agressões e humilhações. O chinês-canadense veio comentar comigo, em francês pra ninguém entender:

-- A professora Janice bateu tanto num garoto hoje que  ficou uma marca. Isso é inaceitável! O que a gente pode fazer?

Realmente, ela era terrível! Bem vestida, usava um terninho de cor diferente a cada dia e muita maquiagem. Andava com uma vara especialmente para bater nos alunos - todos adolescentes, muitos maiores que ela.

Ela não punia só bagunças ou conversas à parte: punia os erros dos alunos! Considerando que o conteúdo de matemática era difícil, cheio de "pegadinhas", era um festival de agressões. Não converteu para metros por segundo? Série de pancadas de vara na cabeça. Esqueceu de colocar a vírgula? Empurrões e tapas.

P1070958Decidimos conversar com ela, à parte. Reuni toda a polidez do meu inglês para dizer que ela deveria prestar atenção em suas atitudes, que ela estava exagerando, que violência não traz nada de bom, que os alunos iriam reproduzir isso que ela estava fazendo, não saberiam resolver problemas de outro jeito, será que o país precisa de mais violência?! Um desabafo! O chinês-canadense ainda completou que isso é crime, é agressão física, que não acontece nos nossos países e os alunos aprendem tudo muito bem.

Ela retrucou dizendo que os alunos não aprenderiam de outro jeito, que essa era a cultura deles e que a gente não tinha nada com isso. Para exteriorizar sua raiva, no dia seguinte, aproveitou que estávamos eu e o chinês-canadense na sala dos professores e chamou um aluno. Pediu o caderno dele e começou a procurar erros.

-- Como você chegou a esse resultado, onde está a conta? [pancadas] Você é mesmo um idiota, pulou o exercício número 4! [mais pancadas]
O menino tenta se esquivar, ela se levanta, empurra-o para o canto externo da sala dos professores, o lugar mais alto da escola, onde todo mundo pode ver:
-- Você vai ficar de castigo aqui, ajoelhado, até outra ordem minha.P1070926-copie-1.JPG

O garoto ficou lá, ajoelhado, humilhado sem razão (como se bastasse ter uma razão!). A professora sorriu, mostrando o seu poder. Eu e o chinês-canadense carregamos o peso da culpa desse descontrole.

A escola reproduz a sociedade em que está inserida e, pior, pode reforçar seus problemas - enquanto deveria, na verdade, procurar uma solução! Voltei do Quênia com uma sensação de medo, de desproteção, de violência em todos os lados... Não muito diferente do que os próprios quenianos sentem...

Publié dans em português

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Maíra 11/08/2010 17:23



Caramba, Aline, maravilhosa essa sua série de textos. E chocante também, porque é o tipo de relato que a gente NÃO lê em qualquer lugar, porque poucos são os que de fato vivem essa experiência da
forma que você viveu...



caso me esquecam 11/08/2010 15:05



menina, o que eh isso? fiquei horrorizada! e olha que quem tah falando eh a tal pessoa que apanhou muito quando criança! bom, eu ri alto quando voce comentou que perguntou pra que servia o acoite
lah hehehehe porque tua cara de desentendimento, mas quando continuei a leitura, nao vi nada que fosse engracado. como um professor pode pensar que aprendizagem esta ligado com violencia? quando
eu era pequena, meu pai me deu uma aula de matematica. foi a unica que eu lembro de ter recebido, porque ele soh griatava e muito! lembro de ter saido do quarto aos berros, dizendo que nao
voltaria de jeito nenhum. de vez em quando, quando assistiamos tv, eu e meus irmaos, ele chegava na sala e perguntava pela tabuada. a gente gelava, porque, alem de sermos pessimos nisso, ele
gritava muito quando nao sabiamos (e nunca sabiamos hehehe). resultado: eu odeio matematica ate hoje, nao suporto mesmo, sou tapada ate pra fazer conta de porcentagem. se fosse pela logica dessa
professora aih, eu seria um genio, nao? :/



Adelia 11/08/2010 14:26



Nossa, Aline, fiquei chocada com a sua historia! O pior de tudo é se sentir impotente e nao poder fazer nada para mudar este tipo de atitude. No futuro, essas crianças serao adultos temerosos da
autoridade e o pior de tudo temerosos de tentar, por medo de serem castigados se não tiverem sucesso, em qualquer coisa que fizerem na vida. Ou pior, serao adultos violentos, pq foi assim que
eles aprenderam na escola. E' muito triste isso. A sociedade deveria "evoluir", mas parece que so' piora...

Alias, estou gostando muito e sobretudo aprendendo muito sobre os seus ultimos textos. Parabéns!