Efeito borboleta

Publié le par alinemariane

É a coisa mais normal do mundo. A maior parte das pessoas deve passar por isso. Exatamente assim. Livros, revistas e blogs estão cheios de exemplos. A própria história da humanidade mostra com detalhes: é assim mesmo. Porém, reconheçamos, parece que só entendemos quando se passa com a gente.

Eu me mudei de país, de continente, de hemisfério! Na verdade nem é uma mudança tão drástica assim. A França é um país ocidental, católico, democrático. Onde moro tem água encanada o dia todo, energia elétrica, internet. Igualzinho ao Brasil. Já passei por perrengues piores.

LESFEUXDELAMOURLOGOFEUILLETONTF1.jpgMesmo assim eu me sinto como se tivesse, a cada dia, que aprender um passado que eu não conheço, compreender um presente que não faz muito sentido. Aprender que o dia 18 de junho é um dia super importante, pois foi quando o General de Gaulle fez um discurso chamando os franceses à resistência durante a 2a. Guerra. Ou que a pessoa mais rica da França é a herdeira da L'oréal e o pai dela inventou a tintura de cabelo e o protetor solar - coisas que não vivo sem, uau! Ou ainda que a novela Le Les feux de l'amour, aquela da dublagem medonha, é o maior sucesso do início da tarde na TV desde 1989!

Além da mudança de país, eu me casei. E ganhei uma família nova, assim, de brinde junto com o marido. Para a administração francesa, passei de Aline Mariane Meu-Sobrenome para Aline Mariane Sobrenome-Dele. Talvez fosse sorte demais para uma pessoa só ter uma família linda, fofa, ai que saudade, como a minha. A nova família, a belle-famille, é esquisitíssima, só se fala se for pra brigar.

Faço listas dos nomes dos tios, tias, primos e primas, indicando a idade, onde mora e se é homem ou mulher - como é que iria advinhar que Lilian e Camille eram meninos?! Tenho uma verdadeira árvore genealógica toda traçada para mostrar quem é brigado com quem, quem ainda fala com quem, quem eu posso falar.

Daí eu me descubro com uma função nessa bagunça toda. Meu lado religioso diz que foi Deus que me colocou lá. Meu lado prático me diz que alguém tem que fazer alguma coisa e sobrou pra novata. Meu lado sentimental diz que eu não gostaria que acontecesse algo assim com a minha mãe. Cá estou, descobrindo como transformar amor de casal em amor de família.

papillon.jpgAlguém já ouviu falar em amor de sogra?! Não é à toa que sogra e madrasta são a mesma palavra em francês. Aprendo a importância de escutar a mesma história várias vezes, como se fosse a primeira. De dar risada mesmo que não tenha tanta graça assim. De dar um abraço, um beijinho de boa noite, dizer que a roupa nova caiu bem. De procurar um ponto positivo no meio de tantos negativos, um pouco de paz em tanto sofrimento. Sem culpas, sem culpados. Um pouco de ar fresco.

No final, tenho a impressão de ter que reconstruir na minha memória, a cada dia, uma história que não vivi, mas da qual faço parte. O lado bom disso, diferente do filme bobinho que intitula esse post, é que a minha história continua existindo, lá com seus altos e baixos, mas cheia do carinho que agora eu preciso aprender a passar.


PS: Nota mental: preciso voltar aos meus rascunhos de textos mais sérios. Não sou boa para filosofar. Ainda menos sobre a minha vidinha besta.

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Cristiane 31/07/2010 16:53



Aline, to super chateada! Aqui no Brasil só consigo ler seu blog na casa da minha sogra! Nao sei pq, ja tentei mexer na configuracao do meu comp, do comp do trabalho, mas o dela é o único q abre.
:(


Bem, falando em sogra kkkk adorei essa curiosidade francesa sobre sogras e madastras hehehe 


 



adriano santos 28/07/2010 20:03



Aline,


Você encanta sempre!


Suas palavras, seu jeito, sua beleza!


O mundo passar por nós todos os dias e a gente por ele, apenas uma vez, versa uma música. Mas que quero dizer com isso? Quero dizer que o futuro é de fato algo não muito imaginável. Planejar até
ajuda, mas de repente, vem o amor e muda tudo ou alguma outra surpresa da vida!


Te vejo tão longe, sinto saudade e daí?! Talvez nunca mais nos cruzemos, percamos o contato e assim por diante. Fato é que, hoje e sempre, lembrarei de ti! E dos textos maravilhosos que você
filosofa!


A vida é um texto, cheio de poréns, de vírgula, de mistérios! Viver é filosofar, é falar do encantado, do desconhecido. E sua vida é uma arte, um texto de filosofia, daqueles lindos! Podemos
olhar o passado, as culturas, a distância, a saudade, o amor, o imprevisível... Muitas coisas numa só! Se no passado haviam as garrafas que cruzavam o oceano para serem lidas por alguém, temos
hoje seu blog, despretencioso, cheio de histórias, lembranças, reflexões e carinhos.


Você é admirável!


Sinto saudades,


Bjs pro casal maravilhoso que o universo formara. E quem explica essas milhares de conexões que ali te colocam? A borboleta bateu asas e vôou, vôou tão longe...


Adriano



luci 27/07/2010 23:51



pois eu adorei esse post! e nao eh porque sei bem do que voce tah falando.


adorei!



Helena 27/07/2010 00:23



Ops, onde está "Esse mundo é o meu" eu quis dizer "Esse mundo NÃO é o  meu":)



Helena 27/07/2010 00:03



Ai, Aline, quem disse que esse assunto não é sério? E a tua vidinha não é besta, não, oras. Eu acho que é um dos teus textos que eu mais gostei, pois fala com profundidade de algo pelo qual tu
estás passando e que várias pessoas devem se identificar. Tipo eu. É tão estranho ter uma vida toda para compreender (e uma família toda, e a história de um país toda e os hábitos das pessoas e o
comportamento das pessoas e o funcionamento das instituições e muitas outras coisas) . Entender, compreender, saber para poder viver nesse meio. Me sinto tão estranha em detalhes bobos, como por
exemplo, quando o maridón começa a falar com os amigos sobre os desenhos animados da infância deles. Esse mundo é o meu e nunca  vai ser, porque como que vou entrar nesse passado que não
vivi? É tão bizarro tudo isso. Mas o teu esforço, principalmente em relação à belle-famille, com certeza vai te fazer mais próxima desse mundo, e há maior riqueza do que poder viver em dois
mundos diferentes?


Um beijo e força aí!