A unha do dedo mindinho

Publié le par alinemariane

"Qual a chance de alguma de vocês se apaixonar perdidamente por um cobrador de ônibus, daqueles que usam a unha do dedo mindinho mais comprida para poder coçar a orelha?" 2004, ECA. Um dos melhores professores que tive usou exatamente essa frase para exemplificar o estruturalismo construtivista de Pierre Bourdieu. Rimos, eu e as meninas da sala - era uma sala 100% feminina, as minhas veteranas.

dedomindinho.jpgMinha boa memória para coisas inúteis registrou isso muito bem. Fiquei convencida de que não, eu não me apaixonaria perdidamente por um cobrador de ônibus com a unha do dedinho comprida. Casais se formam dentro de uma esfera de contatos e... bem, mesmo que eu visse cobradores com unha do dedinho comprida com bastante freqüência nos muitos ônibus que pegava nessa época, eu tinha certeza que não me apaixonaria por um deles. Mais certeza ainda agora que sou perdidamente apaixonada pelo meu cherido (oh, lindo!), que era um colega de trabalho à distância. E ele sempre corta todas as unhas.

A regra geral é que a gente se apaixone por pessoas parecidas com a gente. Meu pai e minha mãe se conheceram numa balada em Belo Horizonte, mas tinham em comum o fato de virem da mesma cidadezinha do triângulo mineiro (fala sério que eles nunca tinham se cruzado!). O namorado da minha irmã fez a mesma faculdade que ela. O marido da minha amiga faz parte do mesmo grupo de amigos. Enfim, amigos de infância, colegas de faculdade, amigos do amigo, encontros na balada ou no trabalho... os casais têm uma tendência a serem parecidos por uma questão de afinidades e de estatística. São pessoas que têm interesses comuns e, claro, estão próximas.

eboueur220.jpgRecentemente, num curso de férias, fiz amizade com a única menina com mais ou menos a minha idade. Num convite para sair, ela comenta o namorado não poderá vir porque ele começa a trabalhar às 4h da madrugada. Pergunto o que ele faz para ter que acordar assim tão cedo e ela diz que ele é éboueur. Faço que entendi e mudo de assunto. Depois pergunto para o Loic e não acredito na resposta: éboueur é a pessoa que recolhe o lixo. O dicionário confirma: lixeiro. Heim? A minha colega de curso de desenho, a melhor aluna, estudante de Belas-Artes, tem um namorado lixeiro?! Nossa...

Somos poucas meninas no mestrado. Uma delas namora um dos nossos colegas de turma. Outra, o namorado faz graduação de gastronomia na mesma universidade. Ok, normal segundo os conceitos estruturalistas construtivistas da minha cabeça. Porém... o namorado de uma é mecânico. E de outra é caminhoneiro! Não tenho como deixar de estranhar! Deve ser a primeira vez que tenho amigas cujos namorados são lixeiro, mecânico ou caminhoneiro. Será que eu vivia numa bolha antes?!

Sim. Meu estranhamento é justamente porque no Brasil as classes não se misturam. E eu, mocinha de classe média, estudada, convivia só com mocinhos e mocinhas classe média estudados. Esses não são lixeiros, mecânicos ou caminhoneiros. Mesmo que tenha trabalhado na periferia e conhecido muitos lixeiros, mecânicos e caminhoneiros - assim como cobradores de ônibus! - a proximidade nunca foi grande. São eles lá, eu cá.

mecanicien.JPGEssa é uma das coisas que eu mais invejo na França: a proximidade entre as profissões. Eh claro que aqui também existe uma divisão social do trabalho entre explorados e exploradores, mas ela não é tão evidente quanto no Brasil. E isso é ótimo! Lixeiros, mecânicos, caminhoneiros ou babás, garçonetes e recepcionistas (que eu sou / fui!) não ganham um décimo do salário de um economista com mestrado. Também não se pressupõe que sejam analfabetos ou com baixa escolaridade. Assim, podem conviver, fazer parte do mesmo grupo. Apaixonarem-se perdidamente. Viverem felizes juntos. Espero que também cortem as unhas de todos os dedos.

Vale comentar que talvez parte do meu choque seja porque os homens tinham profissões que eu considerava menores que suas namoradas. Se fosse o contrário, ela seria a Cinderela e se encaixaria nos meus padrões de encontros à la brésilienne. Uma misoginia e preconceito de classe que eu nem sabia que tinha. E que trato de começar a resolver.

bolha.jpgPorque é incrível poder conversar com o lixeiro-grafiteiro, que tem o dia todo livre para fazer sua arte. Contar com o mecânico para instalar um novo limpador de pára-brisas enquanto toma cerveja. Escutar as aventuras do caminhoneiro poliglota por toda a Europa. Por que raios eu não convivia com isso antes?! Por que dizem que o Brasil é o país da mistura se existem trabalhos ditos de rico e trabalhos de pobre, feitos exatamente para manter esse status?!

No Brasil, essa bolha se constrói num discurso recheado de preconceito disfarçado de  meritocracia. Talvez falte uma unha comprida do dedo mindinho para furar essa bolha. Ou talvez falte um dedo mindinho.

Publié dans em português

Commenter cet article

Pedro 23/06/2016 19:14

Olá,
Sinceramente achei o texto muito, mas muito imaturo.
Primeiramente: Qual o problema de um médico casar-se com um Lixeiro? Isso é apenas um exemplo de o porque o Brasil não vai pra frente, pelo povo de cérebro inativo.
Segundo: unhas curtas? pelo direito de liberdade, se um cidadão tiver vontade de arrancar seus dedos, é um problema exclusivo dele e de mais ninguém!
Terceiro: Maior erro na minha opinião - Qual o objetivo de comparar o Brasil com a França ou outros países desenvolvidos? já pensaram como comparar um jovem formado em jornalismo conversando com uma criança de 5 anos?
Ser crítico não custa nada, pensar que toda moeda possui dois lados, já fortalece.
Abraços.

caso me esquecam 30/10/2010 12:16



eu sou doida! tinha lido esse post, soh nao tinha comentado o que queria. :X



Amanda 26/10/2010 23:39



Adorei esse post!! Tem tudo que eu gosto de debater: luta de classes, preconceito, sexismo, hehehe! Eu concordo 100% contigo e amei o exemplo da unha do dedo mindinho (que na MELHOR das
hipoteses, limpa a orelha). Existe mesmo um abismo entre as classes no Brasil e o mais incrivel é o pessoal revoltado com a novela da India, achando um absurdo as castas, sem perceber que no
Brasil é igualzinho. Beijo!!



Helena 26/10/2010 18:44



Ótimo texto, Aline. Tava falando um pouco sobre isso com o maridón esses dias, falando pra ele de quanto ganham  meus chefes e de como a diferença em relação ao meu salário é enorme! Ele
ficou surpreso com a diferença e disse que na França não há isso, são pouquíssimos os mega salários... essa diferença acaba gerando um abismo, pois as pessoas não moram nos mesmos lugares, não
frequentam os mesmos lugares. Ainda temos muito trabalho pela frente, por aqui, mas acho que as pessoas também tem que 1) se dar conta disso e 2) passar a não ter mais essa visão de "superior" e
abrir espaço para os que os outros entrem na nossa vida.



Adelia 25/10/2010 12:56



Putz, meu comentario ficou todo bagunçado! :-(