Sentimento de brasileira

Publié le par alinemariane

Nunca levei a sério o fato de ser brasileira. Nao sei sambar (apesar de gostar de Carnaval), nao gosto de musicas em português no geral (exceçao pra Bossa Nova), nunca fiz capoeira, ciranda, maracatu e qualquer dessas coisas que se relaciona diretamente com o Brasil, meu conhecimento geografico se limita ao eixo sul-sudeste... Enfim, o Brasil nunca me encantou. E isso nao quer dizer que nao gosto de la, ao contrario, afinal, nem sequer ambiçao de morar fora eu tinha. E ainda nao consigo me imaginar em outro lugar no futuro. Mas é fato: nunca tinha me dado conta desse fato que é ser brasileira.

Acontece que esses ultimos dias fui tomada por um sentimento de "brasilidade", que dizem ser comum em expatriados. Uma mistura de saudade e deslumbramento, orgulho e curiosidade. Tive algo assim pouco antes de ir para a Africa e, chegando la, tive a ligeira impressao de estar em casa - o que passou rapidinho, rapidinho.

Sao Paulo, mon amour

Esse é o nome da exposiçao de fotos que fui sexta-feira aqui em Paris. Adorei, mas nao sei se isso se deve ao fato da exposiçao ser realmente boa ou se porque despertou esse tal sentimento.

Meu caso de amor com a cidade de Sao Paulo é um tanto esquisito. Pra começar, nao sou paulistana. Nao nasci nem fui criada na capital paulista. Mudei pra estudar, ja com 18 primaveras interioranas. A cidade em si é feinha que doi, tadinha: poluida, fria, nao tem praia, tem um trânsito caotico, um clima ainda mais caotico, é enorme tanto em tamanho quanto em quantidade de pessoas. Conheci muitos paulistanos de verdade, convictos, gente que ama Sao Paulo, que nasceu, cresceu e sempre quis morar la. Por outro lado, os filhos adotivos, que sao muitos, geralmente querem se mudar logo.

Mas alguma coisa acontece no meu coraçao, que so quando cruza a Ipiranga e a Avenida Sao Joao...

As horas passaram rapido na exposiçao. Fotos panorâmicas, de ruas e prédios, das obras do metro, de personagens e seus respectivos bairros. Videos em português contando a historia de um motoboy e outro de pichadores. Como é bom escutar "Ta ligado, mano?!", "Firmeza?!" ou a expressao mais paulistana que existe, o onipresente "Meeeu!".

Encontro de Blogs



Sabado conheci pessoalmente (porque conhecer mesmo, ja conhecia pelas historias) varias colegas de blogsfera. Brasileiras, escrevendo em português, morando na França. Nao temos so o teclado azerty ou as pendengas com a Préfecture de Police em comum...

A organizadora foi a Amanda (Petit Journal de la Porte Dorée), a Mariana (E nao é que às vezes da tudo certo?) deu a ideia do amigo secreto de posts (aguardem!!), a Luci (Caso me Esqueçam) veio diretamente de Lyon, a Maira (Ne me manquez pas) fez uma boa descriçao de cada blog, a Bel (C'est pas vrai), a Tania (Agua tem na Carne, maionese é oleo) e a Ana (Ana So) colaboraram pra quebrar meu preconceito contra cariocas (existem cariocas legais!!!) e o Rodrigo (Bressane Blog) e a Margareth me fizeram curtir o meu sotaque preferido, o de Belo Horizonte (talvez porque esse seja o meu sotaque original). Tudo isso no lindissimo Bois de Vincennes cor de laranja outono.

Foi taaao legal!! Todas as fotos sao roubadas, porque eu nem pensei em levar câmera...

Fazia tanto tempo que nao falava português que me peguei me enrolando varias vezes. Que horror, como assim se confundir com a lingua materna?!!!! Fiquei envergonhada de mim e me prometi a nao so ler e escrever, mas também falar um pouquinho mais do meu idioma! Brasileiros, podem me ligar no Skype.

Lavage de la Madeleine

Os muitos brasileiros na França resolveram recriar a Lavagem do Bonfim nas escadarias da Madeleine, igreja gigante e linda bem no centro de Paris. E eu, que nao sei sambar, que nao sei nadica de nada da Lavagem do Bonfim, que nunca nem estive em Salvador, que morro de medo (mas sou interessada) das religioes afro-brasileiras, que abomino musicas estilo "axé music" etc. etc. fui. E arrastei o Loic comigo.

Dancei na rua como no Carnaval, com a diferença que fazia um calorzinho. Curti as batucadas e até fui atras do trio elétrico puxado por uma cantora que disseram que era famosa (gente, eu so conheço a Ivete Sangalo, e é porque ja fui num show dela no Ibirapuera). Morri de rir do sotaque do brasileiro que animava o trio falando francês. Isso até que o Loic me lembrou que eu também falo assim, que medo...


E tudo isso fez aflorar o meu sentimento de brasilidade. Nao basta falar português com sotaque regional, ouvir batucada, comer feijao ou queijo minas (porque queijo é queijo, fromage é fromage). Precisa ser no Brasil... Saudade.

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luci 07/10/2009 18:19


ai, que ultimo paragrafo lindo! ate fiquei com lagrimas nos olhos! hahahaha eu sou uma besta. mas eh incrivel! porque eu tenho salvo no blog um post pela metade justamente sobre essa coisa de ser
brasileira, da saudade e de tudo isso (com certeza tem a ver com o pic nic). ate me deu vontade de terminar o troço agora! vou nessa! :D


Helena 01/10/2009 17:21


É realmente verdade isso que tu escreveste. A gente se descobre mais brasileiro quando conhece o que é "não ser brasileiro". Sabe que mesmo morando no Brasil, sinto estar descobrindo o Brasil. E
isso graças ao chéri. Eu sempre viajei e gostei de conhecer as culturas daqui, mas acho que não valorizava tanto até perceber como o chéri e outros estrangeiros que encontro aqui se encatam com o
Brasil. Eles vêem tantas coisas positivas que a gente deixa passar e nem presta atenção. E estou adorando essa "re-descoberta" do nosso Braziuzão :))


Mary 30/09/2009 16:16


Aline!
Lendo esse seu post, revivi tudinho o que eu mesma vivi em Londres! Saudades de casa, da comida da mãe, de andar nas calçadas esburacadas de São Paulo, ouvir a língua materna, ver as paisagens
urbanas que antes pareciam tão banais... Como você, eu também não tinha noção do que era ser brasileira antes de morar fora. Mais do que isso, não sabia que eu era tão brasileira. Como diz um amigo
meu citando algum filósofo (Nietzsche, acho): só construímos o nosso eu em oposição ao outro.

E nessas horas de saudades, tudo (TUDO!) que é brasileiro parece liiindo, até axé, vê se pode... O sotaque do motoboy, o Minhocão, o pastel de feira, o queijo minas parece mais gostoso do que o
fromage (pelo menos traz mais memórias).

Mas aí percebemos também o quanto já não somos só brasileiras depois de tanto tempo fora do país... Você vai sentir mais isso quando voltar (se voltar)...! Ficamos sendo uma mistura de
experiências.

Beijos! Saudades!


Maíra 30/09/2009 13:45


Oi, Aline! Também adorei te conhecer pessoalmente! Claro que eu já dava uma olhada no que você escrevia, mas conversar, interagir "ao vivo" :-) é sempre bacana. Já to lendo o blog todo e coloquei
na minha listinha de favoritos!

E, olha, moça da novela, eu e o Rafa também somos do RJ e não somos marrentos! Hehehehe!

beijinhos e até a próxima


Margareth Travassos 30/09/2009 00:25



Ola, Aline!

Como ja era de se esperar, um excelente post. Gosto muito da maneira como vc aborda os temas que escolhe. Como boa mineira, vc come pelas beiradas.

Bjos