Antes de começar:
Esse é sem duvidas o post mais dificil que ja escrevi. O tema esta salvo na pasta Blog do meu computador ha tempos. Abro, escrevo alguma coisa, copio e colo pesquisas, salvo, às vezes nao
salvo. Ja desisti e retomei a coragem de escrever varias vezes.
Ontem eu sonhei com isso. E depois recebi um comentario da Amanda perguntando sobre o tema. Devia ser um sinal, sei la, esta na hora de criar
coragem e escrever!!!
Fiquei pensando na maneira mais justa de escrever. Afinal, nao sou especialista e conheço muito pouco dos aspectos historicos, sociais, politicos e ideologicos por tras disso. E o tema mexeu
comigo, a ponto de ficar com um no na garganta so de pensar, sinto meu coraçao acelerado. Decidi contar o que vivi, uma narrativa, para evitar (ao menos um pouco) os julgamentos e os aspectos
teoricos que nao domino.
A liberdade de usar calcinha
Nunca me considerei feminista, apesar de abominar o machismo e procurar estar sempre atenta para os direitos das mulheres. O fato de nao me considerar feminista estava mais por nao conhecer esse
movimento e por ter a convicçao de que militantes devem sempre conhecer a sua causa. A causa das mulheres sempre apareceu na minha vida misturada em outras causas: educaçao
e mulher,
trabalho
e mulher.
Diz o estereotipo que as feministas queimaram sutias porque sao o simbolo da dominaçao que as mulheres sao vitimas. Verdade ou nao, queria dizer que descobri que a primeira liberdade de uma mulher
esta no fato de usar
calcinha...
Como o assunto surgiu
Ainda em Paris, às vesperas de ir para Dakar, estava na casa de um amigo esperando-o para sair (estereotipos à parte, esse é um amigo homem que demora para se arrumar para sair!). Na mesa de centro
tinha um livro grosso, nao faço ideia do titulo, mas era alguma analise antropologica de varios ritos. Tinha capitulos que falavam de nascimentos, batizados, casamentos e um capitulo estava marcado
com a pagina dobrada. O tema anterior eu reconheci na hora:
circoncision. O tema capitulo marcado era uma palavra nova para mim:
excision.
So entendi do que se tratava ao começar a ler: tratava da
mutilaçao genital, também conhecida como
circuncisao feminina - que em comum à masculina so tem o fato de compor um
ritual. Um aperto no meu coraçao. Mostrava esquemas dos tipos de mutilaçao e uma tabela com dados de 1980 sobre o numero de mulheres mutiladas por pais - paises africanos em regra. Procurei o
Senegal, estava do meio para o final. Um asterisco afirmava que os dados eram residuais e que todos os paises ja tinham tomado medidas para acabar com essa pratica terrivel. Senti um certo
alivio.
Claro que eu ja tinha ouvido falar nisso. Mas so ouvido falar, lido rapidamente. Era a primeira vez que o tema caia nas minhas maos...
O primeiro contato
Uma das horas mais interessantes da minha estada em Dakar eram os dias em que eu tomava café da manha com minha melhor amiga, que tem exatamente a minha idade (na verdade é uma semana mais nova,
somos as duas de dezembro de 1982) e mais ou menos o mesmo nivel de francês que eu. Eram so nos três: eu, ela e a
petite, por volta do
meio-dia tomando café
touba e pao com omelete (ou com carne, lentilha, pure de batata). Era nosso momento de falar sobre nossos paises, nossa cultura, nossos sonhos... Ela super curiosa sobre o Brasil e sobre a França,
e eu super curiosa sobre o Senegal e o Mali, onde ela nasceu e viveu até a adolescência.
Um dia ela contava sobre as gravidezes dificieis que ela teve, a morte do primeiro bebê e o parto super complicado da
petite. "Você ja ouviu falar em
excisao?". Ai, aquela palavra
outra vez! "Ja, mas..." Senti aquele aperto no coraçao "O que é mesmo?".
Ela começou a me contar sua historia. A mae tinha 17 anos quando ela, primeira filha, nasceu num vilarejo a pouco mais de 80km de Bamako, capital do Mali. O pai tinha morrido num acidente de barco
pouco antes. Nao era uma boa situaçao: mae de menina e viuva aos 17 anos. A mae ela mesma tinha sido mutilada quando criança e era mais que natural que a filha fosse também. "Quando criança?"
Comecei a sentir frio nas bochechas, pes e maos em pleno meio-dia; certeza que tinha os olhos arregalados e a boca aberta, pasma. Sim, a excisao é feita nas meninas por volta dos sete anos e é
celebrada numa grande festa, junto à circuncisao dos meninos, durante a qual todos vestem branco e dançam em roda. A "festa" (ela mesma fazia uma cara de "festa entre aspas") começa antes para as
meninas, pois elas sofrem com hemorragias que sao estancadas com cinzas de uma planta especial. Nao contive as minhas primeiras lagrimas, uma mistura de pena, pavor e indignaçao...
Nos vilarejos, ha sempre uma mulher que é responsavel por essa pratica. Ela recebe de herança uma lâmina especial, usada unicamente nesse ritual. "Lembro tao bem do rosto dessa senhora, como se
tivesse uma foto dela colada na minha cabeça". No mesmo ano, mae e filha se mudaram para Dakar, atras da avo que era senegalesa. A mae se casou outra vez com um homem que ja tinha duas esposas e
seis filhas mulheres. Teve mais quatro filhas. Minha amiga era a unica mutilada entre as dez irmas. Eu ja era um rio de lagrimas e a
petite começava a estranhar a minha cara vermelha.
"E foi
isso que me fez perder meu menino". Ela conta que passou cinco dias sofrendo com as dores do parto, mas nao tinha a dilataçao necessaria e as enfermeiras a mandavam de volta
pra casa. Tinha passado a gravidez completamente envolvida com o trabalho e "tinha ido ao médico so duas vezes, nao tinha pesquisado nada na internet, nao tinha nem conversado muito com a
minha mae e minha avo. Achava que trabalhar e ter dinheiro pra comprar coisinhas bonitinhas para o bebê era mais importante. Por isso nao sabia em qual hospital ir e acabei escolhendo o mais
barato". O bebê evidentemente nao resistiu a cinco dias de trabalho de parto e nasceu ja morto.
A experiência traumatica fez com que ela mudasse tudo na segunda gravidez, so quatro meses mais tarde. Pesquisando na internet, descobriu qual tipo de mutilaçao tinha sofrido e quais as
consequências disso para o parto. Descobriu o melhor hospital, o médico mais especializado, fez pre-natal e exercicios para ter dilataçao. "Gastei todas as minhas economias, mas foi bom, nao?"
disse olhando pra
petite, sempre sorridente. No parto, outra vez complicado, exigiu e pagou pela cesariana.
"Fiquei o tempo todo acordada e de repente ouvi um chorinho e o médico me disse 'é uma menina'. Foi tao rapido, tao simples, tinha sofrido tanto antes e agora tudo estava bem." Ela conta que esse
médico era sério e durao e que na primeira oportunidade, foi direto "Nao deixe fazer com a sua menina o que fizeram com você. Se você nao quer que ela sofra o mesmo que você, a responsabilidade é
sua." E ela terminou, agora com lagrimas nos olhos também: "Claro que nao, minha bebê vai ser a menina mais feliz do mundo" e nos abraçamos, chorando, as três - quem disse que bebê nao entende
conversa de adulto?!
<<
petite, que saudades de você, minha linda!!
Eu tinha tantas perguntas, queria saber mais... mas nao conseguia falar, nem era a melhor ocasiao.
A calcinha
Estavamos num grupo de sete mulheres, falando sobre amenidades. Duas delas entendiam e falavam bem francês e as outras so entendiam, mas nao falavam. A maior parte da conversa era em
wolof e o tempo todo eu tinha que ficar perguntando "o que ela disse?" ou esperar que uma das duas falasse em francês comigo.
Entre papo de
novela, crianças, marido e roupas, começaram a me explicar o uso do termo
toubab. Como ja falei
aqui e
aqui, toubab quer dizer branco,
europeu. Ou ainda tudo o que é influenciado por eles, do idioma às comidas. Ai alguém me explicou que valia para as roupas também. Calça jeans, blusinhas e
calcinha eram "roupas de
toubab". E eu achei graça "Ué, calcinha também? As africanas nao usam calcinha?" Que nao usavam sutia eu ja tinha notado...
A resposta nao foi nada do que eu esperava "Você sabe o que é excisao?". Ai, outra vez!!!! De volta as mesmas reaçoes: frio nas bochechas, pés e maos; boca aberta e olhos arregalados "Sim, mas... o
que tem a ver?". "Para uma mulher que passou por isso, é dificil usar calcinha..." Nossa!! Comecei a sentir a calcinha que estava usando, onde estava cada elastico, cada costura, cada dobra e o
contato de tudo isso com a minha pele. A mera ideia do que seja um corpo mutilado me da um arrepio profundo, de medo, de angustia... pensar a vida pratica, a calcinha, o xixi, o sexo, o parto,
sofrendo com isso, entao... é impensavel!
"Mas... tem isso no Senegal?" foi a minha primeira pergunta. Entre nos sete, todas com idades entre 20 e 30 anos, quatro nao tinham sido vitimas desse horror. Como eu, toubab, estava no meio dessa
conta, era uma maioria enviesada. Na verdade, era metade da amostra, todas senegalesas, mas as nascidas na capital conseguiram escapar antes. Contaram-me a mesma historia das senhoras que tinham a
lâminda especial, a cerimônia de roupas brancas, as cinzas contra hemorragia. Falaram ainda de uma campanha do governo que dava como uma aposentadoria às senhoras que entregassem suas lâminas, de
contradiçoes entre os Marabous e que isso nao estava no Corao. A discussao enchia-se de calor, a ponto de mesmo as que nao falavam francês esboçarem algumas palavras para me mostrarem sua
indignaçao. Falaram-me do sofrimento com infecçoes e outros problemas recorrentes. A dor ou ausência de prazer no sexo nao é unanimidade, contaram-me que é possivel se adaptar e que so para uma
minoria das mulheres fazer sexo torna-se algo horrivel - e nao era o caso de nenhuma ali. Mas, convenhamos, dor e prazer sao sentimentos completamente pessoais e incomparaveis!
Mas eu estava tratando com um grupo de mulheres especialmente diferente, esclarecidas, conscientes de seu corpo e seus direitos...
A menina
Aissatou era a mais fofa entre as varias meninas da vizinhança. Talvez por ser a mais nova entre as que falavam francês, talvez por ter uma adoraçao pelo meu cabelo e ficar atras de mim até que a
deixasse fazer um penteado, talvez por adorar novela e vir me contar o ultimo capitulo, nao sei, mas foi a que ficou mais proxima de mim. Aos seus nove anos, tinha além de um irmao gêmeo, mais duas
irmas mais novas e seu pai acabava de se casar com uma segunda esposa de apenas 18 anos.
Um dia escuto minha amiga falando alto (ainda
mais alto) com a mae de Aissatou. A mae, uma das varias vizinhas que vinha
sempre para uma
visitinha, nao usava calcinha, como ja tinha notado num dia em que sua saia desamarrou sem querer. Eu
apareço e minha amiga fala em francês, indignadissima: "Ela quer levar a Aissatou para o vilarejo para fazer circuncisao junto com o irmao!!!". E continuam a discussao em wolof. E eu outra vez,
paralisada: bochechas, pés e maos gelados, ouvindo tudo aquilo de boca aberta e olhos arregalados.
A mae de Aissatou saiu e minha amiga me contou que a mae se sentia obrigada a levar a menina para o ritual por temer o futuro dela, para ter um bom marido e nao ser deixada de lado por uma segunda
esposa bem mais nova, como estava acontecendo com ela agora. Coube à minha amiga contar os sofrimentos dos partos, o que disse o médico, o que tinha lido na internet. Disse ainda que a menina era
inteligente e que saberia escolher, ela mesma, um bom marido, mas que para isso ela deveria ter a
chance de fazer isso com
liberdade.
Poucos dias depois encontrei Aissatou brincando sozinha na rua. Perguntei onde estava o irmao e ela disse "Foi para o vilarejo, para a cerimônia de circuncisao". Senti um alivio imenso...
A causa
Tudo o que ja tinha escutado e mesmo o livro que vi antes de ir para o Senegal tratavam a mutilaçao como algo residual, uma questao que estava no caminho de ser resolvida. Nao é inteiramente
verdade. Moças da minha idade (ou seja, nascidas na década de 1980) sofreram isso e meninas nascidas nesse século correm o risco de serem vitimas desse horror.
Outro assunto assim é a propria
poligamia. Antes conhecer a Africa, ouvia e lia que era permitida mas nao era praticada,
o que também nao é verdade.
Sera que minha pequena amostra de conhecidos foi enviesada?! Imagino que teria o viés de serem os africanos com mais acesso à informaçao, pois vivi em Dakar, uma grande cidade e conversei mais com
pessoas que dominavam o francês, o que indicam que foram à escola, que assistem à TV, que lêm os jornais. Por que chego à conclusao que as africanas sofrem dois tipos de opressao explicitas e
crueis como a poligamia e a mutilaçao e isso nao é motivo de revolta do ocidente? Por que os dados que "estao por ai" (digo isso porque nao sou uma especialista) nao mostram essa realidade? Onde
estao dados confiaveis sobre a Africa?
PS: A dona do livro que estava na casa do meu amigo volta da Espanha na semana que vem. Ja tenho um encontro marcado com ela.