Ramadan para uma não-muçulmana

Publié le par alinemariane

Fiquei de contar mais um pouquinho de como é passar uma parte do mês do Ramadan num pais 98% islâmico. Voilà!

Consumo
Sabe aquela euforia que invade o comércio às vesperas do Natal? Pois o mês de Ramadan é mais ou menos assim. As ruas estao cheias de cartazes que "desejam um bom Ramadan", ilustrados pelos simbolos dessa época: a lua crescente e as tâmaras secas. Quando cumprimentam, além de perguntar sobre toda a sua vida, dizem "E o Ramadan?" e ao ir embora "Paz para o seu Ramadan".



>> Propaganda de rua da "Coalhada Niamal", da marca "Ardo" diz: "Ardo vos deseja um Bom Ramadan", em francês


Como passam o dia todo em jejum, as pessoas so pensam em comida. Pensam e compram. Ha um verdadeiro supermercado na rua: as barraquinhas que antes vendiam sapatos, jornais ou crédito para celular agora vendem latas de doces, bolacha, leite em po, suquinhos artificiais etc. Faz todo sentido aquela dica de economia que diz para nao ir ao supermercado com fome...


<< Propaganda da Tigo, a segunda operadora de celular. Diz "Sukerou Koor", ou "Promoçao Açucarada" em wolof e logo mais "Exelente Ramadan e que seu Ndogou seja... bem doce!" em francês. E viva a mistura de idiomas!


Também vejo muita gente vendendo e comprando os tapetinhos de oraçoes, véu (que tem até tamanho infantil) e os chapeuzinhos redondos que os homens usam.

Energia
Falta energia, nao so a elétrica como a da disposiçao das pessoas. A eletricidade esta cada dia pior, a cidade tem passado mais de 24h no escuro, dizem que é por conta do aumento do consumo devido ao calor. Se so isso ja era uma boa desculpa para nao trabalhar, somado ao jejum, ninguém faz nada. Problemas com a Internet e a TV a cabo? Uma semana pra resolver (ganha até da Telefonica, heheh). Três dias pra escolher três fotos. Duas horas pra te servir uma pizza. E por ai vai...

Eh super comum ver pessoas dormindo de dia, no onibus, no escritorio, debaixo das marquises, debaixo das poucas arvores, na praia... Em compensaçao, à noite estao cheia de energia! Haja festa!! Se as ruas ja eram cheias de gente 24h, durante as noites do Ramadan sao lotadas! O calor e a falta de eletricidade colaboram para que as pessoas fiquem na rua, afinal, ficar em casa sem ventilador é fogo, literalmente. Em cada porta ha um grupinho de pelo menos quatro adultos fazendo cha e mais uma dezena de crianças!

Ndogou ou "quebra do jejum"
No por do sol, acontece a quebra do jejum (ou Ndogou em wolof). Nem preciso dizer que é a hora mais esperada do dia, né?! Pois imagine que todas as pessoas querem chegar em casa logo. Para os paulistanos, é mais ou menos como as horas antes dum jogo do Brasil na Copa do Mundo no fim do dia: o caos!! Engarrafamentos quilometricos, pessoas irritadas... até que uma das varias Mesquitas anuncia o por do sol - que era exatamente às 19h30 no inicio do Ramadan e agora ja é umas 19h20!

<< tâmaras secas


A partir dessa hora, tudo muda. Em casa, a mesa ja esta posta: uma mistura de jantar e café da manha: café, leite, pao doce, pao "quilo", atum acebolado, batata frita, lentilha, ervilha... Eh como o Ano-Novo, além da musiquinha-oraçao das Mesquitas, na TV e no radio ha uma "contagem regressiva" e depois varias propagandas de comida desejando um "Bom Ndogou". As pessoas se abraçam, felizes. A tradiçao diz que o jejum deve ser quebrado com tâmaras secas. Ja me aconteceu de passar o por do sol no taxi, no onibus ou numa fila e sempre ha alguém para oferecer as tais tâmaras - que, durante o dia, estao a venda em todas as barraquinhas. O dia que foi moroso e estressante, termina sempre feliz!

Re-acertando o relogio biologico
Foi a somatoria: ja estou cheia da comida daqui, que tem feito mal nao apenas para todo o meu aparelho digestorio como para o meu imaginario (considero o cérebro parte do aparelho digestivo?!), uma vez que tenho pesadelos com comida!! Ja nao tinha conseguido me acertar antes do Ramadan, agora esta pior.

Como todo mundo esta de jejum, durante o dia nao se cozinha em casa, a a maior parte dos restaurantes nao abrem, nao tem refeiçao no escritorio.

<< Para os leitores que nao me conhecem, vale ainda a explicaçao que sou péssima na cozinha, nao gosto, nao sei e estou com preguiça de aprender a cozinhar. Para os que me conhecem, gente, se eu ja nao cozinhava no fogao a gas natural de Sao Paulo ou no fogao elétrico de Paris, vocês acham que arriscaria fazer qualquer coisa nesse fogao de acampamento?! Ha-ha! >>

Pra piorar, descobri que é impossivel armazenar comida. Os motivos eu conto com detalhes mais tarde, mas adianto que tem a ver com formigas, baratas, ratos e mofo. De qualquer forma, taih outro incentivo aos "mini-produtos" da Teoria da Base da Pirâmide: os "pobres" compram pequenas embalagens também porque nao conseguem armazenar as grandes!

Resultado: num raio de meia hora a pé entre minha casa e o escritorio, so tem uma lanchonete que serve algo comestivel. Loic e eu vamos todos os dias. TODOS os dias! O movimento la é grande, pois nao é todo mundo que faz jejum (como comentei, os doentes, os viajantes, as mulheres gravidas ou menstruadas, os muito velhos e as crianças nao jejuam) e a preferência geral é pelos pratos tipicos. Nao a minha preferência, claro. Restam-me três alternativas: Fataya, Sanduiche de carne e Chawarma (uma espécie de beirute entre o kebab e o sanduiche grego, entende? heheh).

Pelo menos, pela manha tomamos café soluvel com bolacha (pacote com 60g ou 4 bolachas, 3 pra mim e 1 pro Loic) escondidos no quarto. Por volta do meio-dia, vamos juntos ou nos encontramos na tal lanchonete. Razoavelmente normal, a nao ser pelo fato de tomar agua escondido...

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luci 09/09/2009 10:43

eu adoro vir aqui, eu sempre me choco! deus me livre, quem me conhece sabe que eu tenho fome (FOME!) de três em três horas. eu morreria de um enfarto antes de morrer de fome:- luciana, você não pode comer pelas proximas 12h. - (poft).