Nana, nenê...

Publié le par alinemariane

>> Em wolof também se diz "nenê" e ha uma cançao de ninar muito parecida com essa!

A relaçao da mae e do seu bebê, apesar do que muita gente diz, nao segue um instinto. Nos, coitadas mulheres, nao nascemos com o dom natural que as outras fêmeas têm para cuidar de seus filhotinhos. A gente pena, pergunta pra mae, pra vizinha, lê livro, revista, pesquisa na net. E ainda tem a impressao de nao saber nada. Aaff, que medo, eu é que nao vou ter filhos!

Uma prova disso é que a maneira de cuidar dos bebês muda muito de um pais para outro. Lendo o blog da Mariana, vi que até as recomendaçoes médicas mudam! Se nem os médicos estao de acordo, quem diria as mamaes...

Moro com uma pequena familia maliana-senegalesa que tem uma bebezinha de 6 meses, a minha petite , uma fofuuuuura, linda demaaais (ai, essa tia coruja...). Como a mae é minha melhor amiga e companheira por aqui, a convivência tem me mostrado o quanto, enfim, nao existe regras pra cuidar de um bebê. Vejam algumas diferenças:




<< Petite e eu




- Nao se sabe o sexo nem se escolhe o nome antes do bebê nascer. Minha amiga teve uma gestaçao super complicada, ja tinha perdido dois bebês (um com poucos meses de gestaçao e outro durante o parto) e teve que ser acompanhada por médicos o tempo todo. Nao passou pela cabeça dela nem dos médicos em saber se era menino ou menina durante os varios ultrassons. Ela também nunca pensou num nome. O bebê que morreu no parto, um menino, nao tem nome e ela se refere a ele como "meu menino". Estava em Paris quando a petite nasceu e claro que o nome foi uma das minhas primeiras perguntas, depois de saber que elas estavam bem. Pois entao, tive que esperar - e acho que era a unica inquieta com isso...

- Batizado. O nome é escolhido pelo pai no dia do batizado, que acontece obrigatoriamente dez dias depois do nascimento. Isso quer dizer que o batizado e a grande festa que o segue pode acontecer em qualquer dia da semana; ja fui a três batizados desde que cheguei e nenhum foi num final de semana. Mas ja disse que isso de "dia util" nao tem nada ver aqui, né?! A festa é incrivel, dura realmente o dia todo e é cheia de pequenas cerimônias. Mas o bebê e a mae so participam de uma pequena parte, na Mesquita; depois sao so os avos e o pai.

- Menino ou menina? Por aqui, nao existe essa de "rosa de menina, azul de menino". Mesmo os homens crescidos usam rosa e lilas numa boa e adoram sandalia de plastico, tipo "Melissinha". Entre os bebês nao é diferente, a petite tem um macacao azul escrito "Daddy's Little Boy" e ninguém acha nada de mais. Porém, as meninas têm obrigatoriamente as orelhas furadas ainda na maternidade (eu também tive!! E nao adiantou nada, porque raramente uso brincos...) e ja saem de la com argolas relativamente grandes. Um colarzinho de pedras cilindricas também é obrigatorio, dizem que é para que ela tenha um pescoço bonito. A pobre petite vive tentando se livrar desse colar, tadinha... Esse é so o maior de todos os colares, mesmo os meninos usam outros, cada um com uma proteçao diferente.

- Massagem africana. Se eu visse alguém fazendo essa tal massagem sem saber que é super-tradicional, correria denunciar para a policia! Parece sessao de tortura, é horrivel!!! Ela é feita todos os dias nos dois primeiros meses de vida, uma vez por semana nos dois meses seguintes e mais raramente depois, até completar um ano: pega o bebê por um braço, pelo pezinho, joga dum lado, joga do outro, aperta as costas, tudo melado com manteiga de karitê. E o pobrezinho chora, se engasga e leva tapoes no bumbum. A petite nao chora mais, brinco que ela gosta de "fortes emoçoes": ri quando é carregada de cabeça pra baixo, grita quando é jogada pra cima e se lambe toda com a manteiga...

Dizem que é isso que faz os africanos serem tao fortes. Talvez seja verdade, até uma menina de dez anos é mais forte do que eu; no geral, as pessoas têm uma flexibilidade incrivel e fazem coisas que so com muito alongamento...

- Bebê-mochila. No Brasil, definitivamente nao é habito de se carregar bebês amarrados às maes. Via mais na França, geralmente bebê-canguru (amarrado à frente), sendo que o bebê-mochila (nas costas) era mais comum com as maes negras. Por aqui é a regra: todas as mulheres carregam os bebês assim. Até as meninas brincam de carregar bonecas ou outras crianças assim. O normal é usarem dois panos especiais pra isso, mas, no dia a dia, qualquer coisa esta valendo: canga, toalha de banho, cobertor, toalha de mesa... A petite so dorme assim, talvez porque com as pernas e braços presos, ela nao tem o que fazer a nao ser dormir. Acho lindo, mas nao tenho coragem de carregar um bebê nas costas!

- Bebê vai trabalhar. A licença maternidade nao é remunerada no Senegal. Mas isso enfim nao é la muito importante porque a maioria das trabalhadoras nao têm qualquer tipo de registro. O que fazer? Carrega os bebês para o trabalho! Você vê maes e seus bebês-mochila fazendo todos os tipos de trabalho: limpeza, cozinha, cabeleireira, vendas... Numa das minhas primeiras viagens, levei um susto ao encontrar uma menininha na porta do quarto do hotel, mas depois vi que era so a filhinha da camareira... Uma das empregadas domésticas que tivemos, estava gravida e nao pensava em parar: iria trazer o bebê com ela.

- Bebê vai, bebê vem. Como criança é o que nao falta por aqui, existe também um "intercâmbio" entre as mamaes, que deixam os bebês, nao importa qual idade, com nao importa quem. A vizinha vem aqui com o tiquinho e vai embora, deixando ele aqui. Ou o contrario, outra vizinha pega a petite, leva pra casa dela, volta uma hora depois. O onibus esta cheio? Nada de lugar reservado à mamae: um passageiro gentil deve pegar o seu bebê, você continua de pé. Alias, ja vi onibus com superlotaçao de bebês!!

- Comer de tudo e mais um pouco. O que o pequeno pode e deve comer deve ser a grande questao das mamaes, nao? Pois aqui tudo é permitido. Dizem que se uma criança experimenta de tudo quando bebê, nao vai ser chata pra comer quando adulta. Pois é. A petite nao tem dentes, mas come o que tiver: pao, arroz, peixe, batata frita, macarrao, mandioca (temperadissimo e super gorduroso, diga-se), banana, melancia, manga, coalhada, cha, café, coca-cola... Nao faz muito tempo que ela começou a comer papinha, mas eu morro de pena - se eu fosse ela, nao comeria: a papinha é feita de leite, farinha de milho (nao é fuba, mas parece bastante) e mel até ficar marrom. Nao deve ser bom...

- Nao tem nem mamadeira e nem chupeta. Amamentar é uma obrigaçao tao forte por aqui que é um absurdo que o bebê tenha mamadeira. Se a mae tem algum problema de leite, contrata uma "mamae de leite" (ja ouvi isso em outro lugar...) e a ordem é que meninas mamem até um ano e meio e meninos até dois anos, nunca mais ou menos. Agua e outros liquidos sao dados no copo, mesmo. Sinceramente, com a falta geral de agua e de higiene, acho uma boa ideia. O mesmo vale para as chupetas.

O mais interessante é que, no batizado, os bebês recebem uma pulserinha de "grigri" (uma espécie de amuleto) que acaba servindo como chupeta: é super comum ver crianças mordendo as pecinhas dessas pulserinhas. A petite às vezes chora, chora, coloca a pulserinha na boca e, entao, fica tranquila. Disseram-me que esses grigris sao protetores dos dentes. Sera por isso que as pessoas têm dentes tao bonitos por aqui?!

- Banho frio é pra todo mundo. Nem para o banho dos bebês ha agua quente, até os recém-nascidos tomam banho de balde ou direto na torneira, com uma quantidade minima de agua, talvez o mesmo que eu uso pra lavar as maos. Nunca mais de um banho por dia, se o bebê se suja ou transpira muito (facil com tanta areia e tanto calor), so ganha uma limpezinha de leve e olha la.

- Desodorante pra bebê. Consequência da caracteristica a cima. Muito perfume, cremes e talquinhos, os mesmos que a mae usa (nao preciso comentar mais sobre a péssima qualidade dos cosméticos, né?!). Se o bebê esta até branquinho de tanto talco, quer dizer que ele esta limpinho (!!), é super bem-visto.

- Muito bem vestido! Cansei de ver, nos parquinhos de Paris, crianças com relativamente pouca roupa para o clima, molhando os pés e a cabeça e pensava "Nossa, minha mae nunca me deixaria fazer isso nesse frio!". Pois aqui é o contrario: um calor de matar e os bebês agasalhados. A petite so vai à praia de meia-calça, usa cobertor felpudo pra dormir, fica so de fralda nao mais que quinze minutos. Mesmos suados e visivelmente incomodados, os pequenos vestem manga longa e gorrinho pra andar no sol. Você nao vê meninos sem camisa, meninas de saia curta, crianças descalças na rua. Estao sempre bem vestidos - ao menos na quantidade de roupas.

Estou adorando acompanhar um bebê (ainda mais uma fofura linda) sem muitas responsabilidades. E so confirma: nao tenho a menor habilidade para ser mae. Nem a menor vontade. Isso passa?!

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Mariana 03/09/2009 18:02

Pois é Aline, é como eu digo, não que não existam regras, elas existem (e são bem rigidas as vezes) mas elas dependem da cultura onde nascem e são aplicadas. Muito interessante saber essas diferenças todas... Achei bem cruel a parte da não existência de uma licença maternidade (não me surpreendi, infelizmente) pois relmente acredito que a mulher precisa de tempo para convalescer no pos-parto. Independente da cultura,os hormônio ficam descontrolados e o corpo enfraquecido pelo sangramento constante durante quarenta dias, pelo menos. Que o banho seja frio até entendo, faz parte, afinal o calor é o calor! Mas cobrir as crianças para passar ainda mais calor, isso não vou entender nunca! Tenho uma teoria de que quem nunca passou frio abaixo de zero pensa que qualquer dez graus é muito frio! so pode... é a unica explicação que eu encontro para este habito! ja na parte da papinha, so posso dizer que a Sofia nesta situação teria que fazer lavagem estomacal todo dia, pois até o leite em po que ela tomava era especial para estômago fragil! e o mel!!! isso até agora para mim era proibido (no Brasil, na França, nos EUA e no Canada também) por causa do botulismo, que nos bebês de até um ano pode ser fatal!!! Essa me deixou até preocupada com a sua petite! Amuletos, batizados, massagens, nomes,porte-bebés, enfim, nada mais cultural que isso não? tenho um amigo que vai ser papai na Escocia e ele me disse que la é proibido perguntar o sexo de bebê durante os ultrassons!!! Achei bizarro, pois fiquei absurdamente ansiosa para saber o sexo do meu bebê e consegui descobrir super-cedo! Quanto ao desejo de ser mãe, importante separar do "talento" para ser mãe. Cuidar de criança se aprende, pode ficar tranquila. Agora, gostar de cuidar de criança, não. Ou vc gosta, se diverte, leva numa boa, ou não adianta. Mas não se culpe se esse for seu caso. Ser titia também é muito legal e as titias legais são sempre muito requisitadas, pode ter certeza!!!  Ah, so mais uma coisinha: acho que eu conheço a canção de ninar que vc citou!!! A Sofia tem um livro/cd de "berceuses du monde" que tem uma canção senegalesa cheia de nenê pra ca, nenê pra la... aposto q é a mesma!!! tua petite é uma graça!!!! super-fofa!!!bjuuus! 

luci 03/09/2009 10:39

nossa. esses foi um dos posts mais chocantes que ja li até aqui. sobre o tempo de amamentação, beleza. sobre meninas usarem azul e meninos não se incomodarem de usar rosa, otimo! aqui deveria ser assim também! mas essa de usar pouca agua pro banho e de agasalhar os meninos nesse calor que eu imagino que faça ai, que terror! ah, e dar macaxeira pra uma criança comer me pareceu meio pesado...  bom, realmente não existe manual pra se cuidar de uma criança. nem mesmo uma mãe que ja teve dois filhos pode dizer que o terceiro vai ser moleza de cuidar. eu gostaria de ter a oportunidade (juizo, dinheiro, saude) de ter um filho. bom, mas se você não tem vontade de ter filhos, acredite, isso é uma benção, como diria minha tia religiosa. gostaria eu de não ter essa vontade de procriar! não que você precise dessa informação na sua vida, mas eu uso todos os metodos contraceptivos que existem por ai soh pra não correr o risco de ter filho antes da hora. quero viver muito ainda antes de ter minha petite =)