Um mergulho base da pirâmide

Publié le par alinemariane

Sabe a famosa diferença entre a teoria e a pratica?! Pois entao, é exatamente isso que estou vendo: a diferença entre uma teoria que aprendi e que julgava interessante e a pratica dessa teoria, que descobri horrivel e degradante.

A teoria:

 A teoria em questao é conhecida como Botton of the Pyramide ou Base da Pirâmide. O grande teorico sobre o tema é o indiano Prahalad. Em resumo simplista, diz que os pobres (a base da pirâmide) podem encontrar no consumo a "soluçao para a pobreza". Seria a erradicaçao da pobreza com lucro. Algumas aspas do proprio que encontrei pela net:



“se pararmos de pensar nos pobres como vítimas ou como um fardo e começarmos a reconhecê-los como empreendedores incansáveis e criativos e consumidores conscientes de valor, um mundo totalmente novo de oportunidades se abrirá”

"[A base da pirâmide] é a maior oportunidade de mercado potencial da história do comércio”

C. K. Prahalad

Ainda sendo simplista, seria como usar as estratégias do capitalismo para acabar com a pobreza. Pobres querem consumir, mas nao têm dinheiro, por isso as empresas nao pensam em vender  para eles e eles continuam sem consumir. Bastaria, entao, que as empresas criassem produtos mais baratos e, plim, "os pobres" poderiam consumir! Simples! Considerando que "os pobres" sao dois terços da populaçao mundial e a previsao de crescimento populacional entre eles é ainda maior, trata-se de um grande mercado, nao?!

Verdade que os casos brasileiros que Prahalad cita nao sao muito convincentes, pelo menos pra mim. Casas Bahia, Habib's, Gol sao exemplos de empresas que "apostaram no consumidor de baixa renda" (concordo so com as Casas Bahia e Habib's) e ganharam dinheiro. O consumidor de baixa renda ganhou geladeira, DVD player, uma baita divida, esfirras e pastel. Eles podem até estar contentes, mas nao estao "menos pobres".

Mas, enfim, achava uma teoria bonita. Imaginava grandes empresas empenhadas em produzir para erradicar a pobreza do mundo...

A pratica:

A Africa é a melhor descriçao de base da pirâmide. O Brasil tem uma classe média consumidora, digamos, exigente e a gente tem a praticamente acesso a tudo o que consome essa mesma classe média na Europa, por exemplo.

Comentei em dois outros posts sobre a falta de controle de produtos cosméticos, sobre a falta de informaçao dos rotulos (em arabe, em chinês, em inglês com erros), sobre os produtos "piratas". Mas a questao é mais profunda. Esses produtos nao têm marca, ou foram fabricados "no fundo de algum quintal" ou sao tao despresiveis para as empresas que os fabricaram que nao ha qualquer referência conhecida. Nao ha para quem reclamar, de quem cobrar. Chegam em containeres sem registros e seguem na ilegalidade até o consumo. Sao "piratas" do começo ao fim da cadeia, nao ha nenhuma estratégia de marketing ou a ideia dum guru do business por tras.

Essa estratégia da base da pirâmide fica clara no que fazem as grandes empresas. Evidentemente, nao vao diminuir muito a qualidade - podem até criar submarcas populares, mas simples e portanto mais baratas, mas nao vao se arriscar a fazer algo como os "produtos piratas" ao mesmo tempo que concorrem com eles. A soluçao é: diminuir o tamanho. Assim, quem nao pode comprar toda uma latinha de Nescafé de 200g por 500 Fcfa (2,20 reais), compra um sachê de 10g suficiente para uma xicara por 100 Fcfa. Tudo se vende em sachê:  80g de sabao em po , 200ml de oleo de soja,  100ml de agua sanitaria, 20g de manteiga, 100g ou 50g de açucar, 1 fralda, 20g de La vache qui rit. Até meia manga você pode comprar.

Sao pouquissimos os supermercados, so no centro da cidade, e sao muito menores do que o Pao de Açucar ou FranPrix. No geral, se compra na "vendinha da esquina", conhecida como Boutique. La, você acha tudo: de todos os sachês possiveis e imaginaveis a sachês criados la mesmo (sachê de pipoca, sachê com uma bolacha recheada, minisachê de 20g de açucar).

E a base da pirâmide consome. E muito!! O resultado de tudo isso: lixo, muito lixo. Imagine que ao invés de comprar um pacotao de 5kg de açucar você comprasse um sachê de 20g todas as vezes que tomasse um cafezinho... Também nao estou dizendo que eles produzem mais lixo que o topo da pirâmide - eles podem comprar açucar de 50g em 50g, mas ainda nao compram embalagens de isopor gigantes com um pedacinho de queijo dentro. A questao é que nao estao preparados para esse consumo todo.

Se a gestao do residuo solido (ou o que fazer com tanto lixo) é um problema para nao importa qual pais, aqui em Dakar, cidade grande africana, é ainda maior. Existe uma coleta mal feita, aqui em Parcelles o caminhao deveria passar uma vez por semana, mas esse mês de julho so passou duas vezes. Reciclagem, zeo. O lixo vai pras ruas mesmo e, como nao tem rio, para a praia. E lixo gera lixo: como as ruas sao imundas, todo mundo se sente à vontade para jogar nao importa o quê, nao importa onde. As ruas cheias de areia sao o destino final de todos os sachês.

O consumo na base da pirâmide pode até ser uma teoria boa. Mas na pratica, se infraestrutura publica, é um grande problema ambiental. Se ter "os pobres" como consumidores os deixa menos pobres eu nao sei, mas que deixa as cidades mais sujas, isso é um fato!

Publié dans em português

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Amanda 09/08/2009 16:19

Ah, so outra coisa sobre o cometario ai de cima. Eh verdade que para algumas pessoas textos longos em blog dão preguiça de ler, mas quando o texto é bom e te prende, você vai ficando com mais vontade de ler e no fim vê que valeu a pena. Sem contar que o assunto é sério e complexo, e precisa de espaço para explicações.

Amanda 09/08/2009 16:14

Otimo texto Aline!! Estou aprendendo muito sobre o Senegal! E vc é muito competente pra mostrar como a partir de uma coisa simples as coisas vão se deteriorando e virando um grande problema! Você tem uma visão bem abrangente da situação! Como diria minha professora do mestrado, tudo é uma questão de "coup et contre-coup" e você sabe mostrar bem isso! Beijos!

Paulo Muzio 05/08/2009 22:39

Aline, blogs com textos muito longos dão preguiça de ler.