Très coquète: a vaidade senegalesa

Publié le par alinemariane


A lingua francesa tem uma palavra que adoro: "coquète". Meu dicionario dah como traduçao "vaidoso(a)", mas vai além disso. Vaidoso, pra nos em português, pode ser negativo, alguém orgulhoso. Coquète nao. Coquète é gostar de se arrumar, de se produzir, de enfeitar. Por exemplo, minha professora adorava dizer que a lingua francesa é "très coquète", por ser cheia de nhéinhéinhéim. Quando demoro pra sair porque tenho que dar um jeito no cabelo, o Loic diz que sou "coquète".

Pois a mulher senegalesa é super coquète. Mais que a brasileira, muuuito mais que a europeia. Eu tenho uma teoria interna da relaçao entre vaidade e individualismo. Isso é evidente no Brasil : nas cidades pequenas, onde todo mundo se conhece, as mulheres gastam tempo e dinheiro para estarem sempre bem arrumadas, afinal, as outras mulheres vao comentar. Em cidades grandes como Sao Paulo, Dublin e Paris, onde o indivudualismo reina, as mulheres saem de mal vestidas sem problema algum.

Como jah comentei, o senso de comunidade em Dakar é incrivel : todo mundo se conhece e mesmo se nao conhece, se cumprimenta, conversa, quer saber da vida. Entao, consequentemente segundo minha teoria, as mulheres seriam super arrumadas. É verdade. As senegalesas sao très coquètes. Alguns exemplos de coquetteries:

Moda:
Os trajes tradicionais, coloridos, com turbantes, convivem muito bem com o moderno, jeans, blusinhas estilo americano. Mas com um ponto comum : das pernas, no maximo a canela a mostra. Joelhos, talvez na praia. Coxas, nem pensar. Braços nus, tomara-que-caia tudo bem. Sutia é coisa rara, mas no geral elas nao têm peitos grandes (descobri minha origem, hehe).

É comum ver moças vestidas com o que a gente chamaria de roupa para casamento: vestidos longos, brilhantes, bordados, bem cortados, em pleno dia, indo às compras ou trabalhar. Sempre combinando : a ordem é a mesma estampa  para a saia, blusa e turbante, sapato da mesma cor. Por falar em sapato, o scarpin aberto atras é a grande moda, com muito brilho e muita cor. Pena que tem tanta areia no caminho…

Eu fico um pouco deslocada. Nao quero usar calça nesse calorao todo, mas minhas duas saias na altura do joelho sao curtas. Copiei delas e estou usando minhas cangas como saia, como a gente usa na praia, presas com varios alfinetes. Por falar em cangas, as daqui sao maravilhosas!

Cabelo:
Sao imbativeis! Acredito que haja mais cabeleireiros do que boutiques (as boutiques sao temas para um outro post), a cada duas casas tem um, mesmo aqui em Parcelles.

Tem bastante daquelas trancinhas afro, como a gente conhece, muito bonitas. As meninas mais novinhas usam miçangas coloridas de letrinhas, frutinhas, chinelinos. As mais velhas alongam os fios, fazem cachos nas pontas, usam fitas douradas.

Mas o mais interessante sao os apliques. Muito, muito, muito aplique. Um mais bonito que o outro. Verdade que um pouco "over" para o dia-a-dia, na minha concepçao brasileira, mas sao otimos trabalhos, profissionais mesmo! Ha os apliques tipo peruca, geralmente para cortes curtos bem modenos, franja, repicado, cores da moda. Outros sao colocados como penteado, na forma de rabo-de-cavalo precedido por trancinhas ou um ondulado mais solto, longo.

Assim, elas estao sempre bem penteadas. Mesmo depois de um longo dia de trabalho sob o sol ou de ficar na janela sem vidro da lotaçao e levar vento na cara. Ao contrario de mim, morrendo de calor com esse cabelao « corte fashion de Paris » e irritadissima com a impossibilidade de lavar todos os dias. Estou pensando seriamente em fazer as tais trancinhas, pra ver se me refresca e se posso passar mais dias sem lavar o cabelo…

Pele:
A pele negra me parece a melhor pele que existe. Mal tem pelos, tem sempre uma cor bonita, nao se queima, nao envelhece, parece estar sempre saudavel. Bem que eu gostaria de mais uns genes negros nesse aspecto…

Mas é claro que é uma preocupaçao da senegalesa. As loçoes e leites hidratantes fazem mais sucesso que cremes, certamente por conta do calor.

O que me surpreendeu sao as loçoes clareadoras, outro sucesso nacional. Ha publicidade por todos os lados, sempre mostrando uma « morena » - e nao negra! As senegalesas querem ficar mais brancas e eu quero ficar mais bronzeada…

Essa obcessao por ficar mais branca ou ao menos nao ficar mais negra se vê nas ruas. Elas se cobrem todas para nao pegar sol. Na praia, passam o tempo todo debaixo da barraca. As crianças e bebês estao sempre todos cobertos, para nao se bronzearem, mesmo que morram de calor.

Maquiagem:
Também imbativeis ! E também aqui se vê a obcessao por parecer mais branca. Muita base e poh criam como que uma mascara, visivelmente mais clara que a pele.

Os olhos sao uma arte à parte. Nunca tinha visto uma maquiagem assim tao bem elaborada. Lapis, delineador, rimel colorido, varias cores de sombra, muito brilho, refazem as sombrancelhas e palbebras.

Batom, minha (unica) maquiagem preferida, resume-se a muito brilho gloss e algumas vezes a um contorno em preto. Bem equilibrado com os olhos.

Super ultra mega “over”, mas pelo fato de ser a regra por aqui, nao é feio. Nas primeiras vistas, confesso que achei que as melheres tinham uma ar, assim, de drag queen, uma vez que sao no geral grandes (ou bem maiores que eu). Mas jah acostumei.

Perfume:
Cecê é a neura das mulheres. E a minha também, passo desodorante ao menos três vezes ao dia, como o protetor solar no rosto. Com esse calor todo…

Acho engraçado vê-las passando desodorante como quem passaria um batom. No ônibus, tira o spray da bolsa e nao importa se espirra no vizinho de banco. Crianças e bebês também sao vitimas. Como se nao bastasse o desodorante, elas ainda adoram perfumes, loçoes perfumadas e aromatizadores de ambiente. Jah os homens nao têm sempre essa preocupaçao, droga! é um festival para o nariz!

Unhas:

Depois de reparar que, apesar de toda a produçao, as senegalesas nunca tinham as unhas feitas com esmalte, perguntei o motivo para a Da. Ela me contou que é por conta da religiao muçulmana, que prega que as oraçoes devem ser feitas com as maos limpas e umidas e o esmalte poderia cobrir sujeira debaixo da unha ou nao deixar a agua realmente entrar na pela unha.

Deve ser por isso que sabado, no onibus, uma meninha pegou a minha mao, com esmaltes rosa choque (adoro!) e disse "Nao é bonito"...

Cosméticos:
Com tanta coquetterie, é evidente que sao grande consumidoras de cosméticos. A variedade é imensa ! Mas uma coisa me deixa, sei lah, meio triste : sao todos produtos de segunda linha.

O Loic me diz que na verdade sao produtos mais apropriados. Nao acredito, isso é papo de europeu. Sao produtos de segunda linha, mais baratos e de qualidade bem inferior, ponto final, ué!

Pra se ter uma ideia da qualidade, o popularissimo (e mineirissmo) Skala, importado do Brasil, é caro, considerado um bom creme para os cabelos. No mais, sao subprodutos importados da Europa e da China. Nao é como no Brasil e na europa, que a gente encontra os mesmos produtos (Unilever, Nivea, Palmolive, Loreal) e soh algumas variaçoes regionais. Essas grandes redes nem ousam colocar seus nomes nos produtos daqui.

Por falar em nomes, no geral nao existe preocupaçao de traduzir embalagens. Ha embalagens em francês, mas em inglês, espanhol, italiano, português…às vezes com erros!! E como a publicidade é a da TV e das revistas da França, adaptaçoes nao faltam. Vi "Doxe" e "Dave" com a mesma tipologia do Dove, da Unilever. As embalagens se esforçam para parecerem com os produtos mais famosos. Pirataria de cosméticos!

Publié dans em português

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Amanda 10/07/2009 17:40

Oi Aline! Li seu blog quase inteiro! Adorei os relatos dai do Senegal! Nossa, vc tem muita sorte de poder viver essa experiência! Continue nos contando mais sobre a vida em Dakar! Beijos!!